Sábado, Junho 13, 2009

Take it back

Mais uma vez, ele olhou para o calendário na parede. Parecia não acreditar que a data era aquela, que um ano havia se passado com uma velocidade tão absurda. Lembrou-se dos sorrisos, das promessas, dos beijos. E de tudo que fizera depois. De como suas certezas viraram dúvidas, de como suas garantias viraram pó. Já estavam no carro, ela chorando, ele impassível. Porta que bate, passos apressados. Um tchau virando um adeus. E a ilusão de que fazia o certo começando a se desfazer no segundo seguinte.

Por isso, o calendário doía. Faltava algo ali. Os mesmos sorrisos, os beijos mais acostumados, as novas promessas. Não aquele vazio, aquela pergunta intermitente sobre o que teria sido. Sempre lidara mal com escolhas, e agora tinha a sensação de que a única que fizera acertadamente foi desfeita pouco depois, por uma sucessão de atos que poderiam funcionar como a síntese de sua vida. O carro já não mais existia, nunca mais voltara ao mesmo lugar. Mas era impressionante como tudo ainda era vivo em sua memória. Logo nela, que sempre costuma falhar. Logo nela, que sempre faz questão de esquecer.

“Um ano”, suspirou. Pensou no simbolismo que aquilo tomava, no tanto que havia para ter sido feito nesse tempo e que simplesmente não existiu. A vida seguiu seu curso, muito aconteceu e quase nada estava no mesmo lugar. Não podia dizer que tinha sido ruim esse tempo. Só era impossível negar que queria que ela estivesse ali. Porque, com ela, cada vitória teria tido um sabor especial – e aquelas que não viessem, algo a ser divido, mas nunca sofrido. Porque, com ela, sonhos teriam virado realidade – e aqueles que seguissem no campo do imaginário, algo a ser adiado, mas nunca perdido. Porque, com ela, vencer e sonhar era mais completo. Sentia falta de se sentir assim.

Riscou, finalmente, aquele dia do calendário. Muitas horas ainda faltavam para que ele se encerrasse, mas pensou que pudesse abreviar as lembranças assim. Era mais uma tentativa de se enganar, como tantas outras que surgiram nesses 365 dias em que frio, calor, viagens, aprovações, descobertas, fracassos, bebidas e tanto mais se deu sem ela. Pensou em escrever o que sentia, mas sabia como era ruim com as palavras. Deitou-se na cama e acendeu um cigarro. Sorriu, sem nem saber por que o fazia. E resmungou baixinho, como quem não consegue segurar um pensamento impróprio: “a verdade é que dói pra caralho você não estar aqui”.

Domingo, Abril 12, 2009

Sobre canções e palavras*

Hoje ouvi o barulho do mar
E contei estrelas no cair da noite

Caminhei descalço, devagarinho
Como se andasse em nuvens no céu

(às vezes parecia até que não estava aqui)

Deixei o vento me envolver

Só assim fui capaz de desenhar, na areia,
Cada palavra
E me fazer poeta de alegrias sem fim

(*diálogo estabelecido com as obras contidas em www.asoutraspalavras.blogspot.com, do poeta e amigo Filipe Couto)

Sexta-feira, Abril 03, 2009

Sobre tijolos e pétalas

"Dear Prudence, won't you come out to play?" (Lennon/McCartney)

Era tarde, e a eles não restava mais a companhia. Conquistaram o silêncio e o olhar perdido, as lembranças opacas de um dia feliz. Do vento que soprava, nem o frescor lhes cabia - as sensações se desfizeram como pétalas esquecidas de uma declaração apaixonada de outono. 

Permaneciam. Imóveis. Impávidos. Inconseqüentes. Um momento que já não existia, um deixar-se estar que nada acrescentava.

Não se sabia se havia alegria ou tristeza ali. Os minutos caminhavam, as xícaras escureciam. Nas mãos, a frieza de quem agira com certeza. Eram sós, não queriam muito. 

Da janela, avistavam o mar. As poucas ondas preguiçavam por sonhar. Decidiram abandonar os brancos e colorir as estradas opostas, pedindo licença para não incomodar.

Porque tantos outros já estiveram assim.

Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

Sertanismos

"Jurei mentiras e sigo sozinho." ("Sangue Latino", Secos & Molhados)

Ele pegou a primeira curva e se foi, sem pensar. Andava com uma segurança que lembrava os tempos em que as certezas inundavam seu ser e qualquer encruzilhada não era mais do que uma simples armadilha que levava a dois caminhos certos. Respirava forte, olhava firme. Mas seu coração tremia. Tremia como se o inverno tivesse finalmente chegado às suas entranhas, como se o fogo que o movia por paixão tivesse simplesmente se apagado. E talvez fosse isso mesmo, anúncios tantos que já tinha tido de que um dia chegaria aí.

A verdade é que era fácil enganar. Quem olhasse não diria que era um derrotado, mestre que era em maquiar as pequenas chagas que a vida deixava ao longo dos anos. Alguns poucos poderiam dizer que ninguém caminhava tão certo assim, mas nada que o levasse a duvidar de sua personagem. Afinal, nada além do seu quarto testemunhava suas fraquezas, e, por sorte, ele não podia delatar as veias solitárias de seu ocupante. Cauteloso, até apagava as luzes e chorava baixinho - era melhor minimizar os riscos. Mas agora era o depois da curva, estrada reta e certeira. E ele não seria mais inexato para ninguém.

Não à toa escolheu não ter chegada para a sua partida. Qualquer porto seguro poderia estragar seus planos. Que se desse a travessia, por fim.

Sábado, Março 22, 2008

As mudanças da hora de partir


Dez e meia e ela não estava pronta. Não que fosse a primeira vez, nem mesmo seria a última, mas naquele dia eu estava especialmente cansado de esperar. O tempo corria, o sono aumentava e eu não deveria estar ali. O combinado era nove, ela sabia. E parecia não se importar.


Dez e quarenta e ela não estava pronta. Nada mais natural, já que eu continuava a esperar. Paciente ou impaciente, tanto fazia. O fato é que ela sabia que eu estava ali e, pior, que eu não iria me mandar. Não havia sono, cansaço ou urgência no mundo dela. E eu aceitava sem reclamar.


Dez e cinquenta e ela não estava pronta. Não existia mais o que a fizesse se preocupar. Meu sorriso já era passado, meus olhos repousavam silenciosos. Quase nem lembrava do que fazia ali, cego para a demora que se fazia. Passos leves, portas se abrindo, luzes acesas. E nós dois ainda no mesmo lugar.


As onze nao chegariam. Ela continuaria lá, pensando no que poderia vestir. E eu, absorto em pensamentos de tanto esperar, descobriria o inevitavel: de nada adiantava tentar mudar.

Segunda-feira, Janeiro 28, 2008

Devagar, começo, fim

Quando levantei, nem eu nem o sol achávamos que era hora de o dia começar. Talvez por isso a chuva ainda caísse fina lá fora, e eu não soubesse se o escuro que preenchia o quarto era do céu ou do meu interior. A verdade é que os dois agora se confundem, presos que são a um eterno movimento de repetição. E eu, quase sério, quase imóvel, quase errado, viro refém daquilo que a minha própria realidade diz. Estou a pouco das quatro horas da manhã. Mas cada minuto dura segundos que não sabem passar.

Ainda lembro a primeira vez que o sol não apareceu para mim. O dia já se anunciava, mas virei para o lado e não tinha nada ali. E a cama vazia me disse que aquela manhã não devia existir, só que os segundos, na época, teimavam em ser velozes, e logo me vi escuro dentro de mim. Quis a chuva tomar o lugar que lhe era de direito, e então descobri que o cinza preenchia os dias que não queriam ganhar cor. Eram não mais do que sete hora da manhã. Mas cada momento significava uma década para lembrar.

Quando acordei, dei alguns passos breves e achei que tudo iria recomeçar. Senti o frio tomar meu corpo, o sorriso desfalecer e uma lágrima se anunciar. O que eu via era o que vinha de dentro, com o pouco de luz que ainda me restava. Tateei o quarto em busca da outra luz, mas ela não era capaz de iluminar. Tive a certeza de que o escuro não iria se deixar vencer. E eu, quase sério, quase imóvel, quase errado, era somente o resultado dos dias que não queriam existir. Sabia que não passava das dez da manhã. Mas cada movimento parecia irromper para machucar.

Ainda lembro a primeira vez que você não apareceu para mim. O dia já se anunciava, mas olhei para o lado e descobri que você não estava mais ali. E o meu corpo vazio me disse que, depois daquela manhã, eu não iria existir. Só que os soluços, na época, teimavam em me dominar, e comecei a desistir de lutar contra o fim. Quis a solidão tomar o lugar que lhe era de direito, e então descobri que as cinzas preenchiam o cinzeiro, o que lembrava mais a minha dor. Era uma hora qualquer de qualquer manhã. Mas nenhum sentimento perderia o lugar.

Quando respirei, o cheiro da chuva começou a me tomar. Foi então que lembrei como era sorrir.

Terça-feira, Abril 03, 2007

Os Incompletos

Era quase brilho que se via naquele meio olhar. Um quase-sorriso debruçado numa meia felicidade, uma lua semi-nua de um dia quase findo. Ela era quase jovem, quase ingênua em sua total paixão. E se sentia parte completa, mesmo quando dele vinha não mais do que meio aceno. Porque sabia das meias verdades que tomavam seu mundo por inteiro, e achava um todo sentido naquilo que podia não ser nada (e talvez o fosse para aqueles que sempre acreditam no nunca). E mesmo quando ele prometia muito e aparecia com pouco, ela era repleta de alegria vazia. Mas não ligava. Sabia que era quase tudo o que alguém podia querer em uma vida inteira, um amor incompleto cheio de certezas de momento. Porque durava o tempo de um meio-abraço apressado ou de um quase-beijo dado desconcertado. Porque deixava uma vontade imensa de ter um pouco mais. E era sempre assim quando no meio de tudo estavam os dois, formando um. Quando os incompletos viravam duas partes de um mesmo só. Quando o meio-sorriso virava quase-felicidade, e o dia semi-começado levava a lua quase nua. E o meio brilho do quase olhar virava tudo o que eles podiam querer para sempre, um amor completo sem as incertezas de um quase-abraço desconcentrado por um beijo meio embriagado. Até quando ela ligava e dizia verdades inteiras que soavam meio fora do mundo e davam muito sentido para o que parecia tão pouco para uma vida inteira de poucos dois que formavam um imenso um só. Totalmente completos por nunca acreditarem que o sempre deixava repleto de alegria o que era apenas vazio. E o aceno não era mais parte, pois estava completo. E no fim de tudo encontravam o seu início feliz.

Sábado, Fevereiro 17, 2007

Retroprocessador de ilusões

Eu esperei por todo o tempo o seu telefonema. Esperei por um sinal de vida, por um oi qualquer, por uma palavra que dissesse estou aqui. Esperei por sua notícia, por sua volta, por seu arrependimento. Esperei que você não deixasse longe por tanto tempo, que você percebesse o erro, que me falasse que sabia que me queria. Esperei. Esperei que você escrevesse uma carta, que mandasse sinal de fumaça, que me olhasse por nada, que soubesse me amar. Eu esperei por você, como sempre esperava. E ouvi meu telefone tocar quando ele nem funcionava, abri minha caixa de correio cada manhã que se anunciava, vi palavras onde nada se expressava. Esperei por qualquer atenção que eu sabia (pensava) que você me dava. Eu esperei até você aparecer. E você não apareceu, certa-errada de não se manifestar naquela hora, deixar o tempo passar como se a gente pudesse passar também, mesmo sabendo que nada ia passar sem que nós passássemos a limpo tudo o que tinha passado no passado, e eu fiquei esperando. E esperei de novo, como se você pudesse ter percebido que havia como acertar depois de tudo, e você só me dizendo que o erro era o acerto da sua vida. Mas não da minha. E eu esperei que você notasse que eu estava ali, pronto para amar você, e que você podia me amar se quisesse assim, mas você não quis. Só que eu quis esperar, e esperei. E você veio de novo e me disse ok, a gente precisa saber, e eu não quis mais saber de nada, só de saber com você o que eu nunca soube. Aquilo que a gente sempre esperou sem saber se devia esperar. E você disse tá bom. E eu disse não sei. E você foi embora, e eu fiquei ali, e esperei você olhar para trás e me dizer que sim. E você virou a esquina. Eu esperei. E você não voltou. E eu não fui. Mas esperei. E parei. E assim terminei. Sem você.

Terça-feira, Fevereiro 06, 2007

Depósito de insensatez

Fechou os olhos e imaginou cada passo que seria dado no dia seguinte. Como sempre, começou a planejar tudo o que fazer assim que a encontrasse; para onde ir, o que pedir, o que dizer. Visualizou os cabelos soltos, os passos apressados, o cigarro na mão e o abraço saudoso. Conseguiu até sentir o cheiro dela, mesmo depois de tantos meses sem sequer vê-la. Era como se o passado fosse logo ali. E isso porque ele fazia questão de apagar essas recordações como poucos.

Abriu os olhos e a porta do carro. Já era perto demais para avistar sua caminhada em direção a ele. Tentou perceber mais alguma coisa, mas era tarde. O telefone nas mãos roubou o abraço, e a ele restou olhar os pés e reparar nos sapatos branco-e-preto. Reconheceu os cabelos, o cheiro também. Trocaram sussurros e ele seguiu o caminho, sem disfarçar para si o prazer de estar de novo ali. O prédio, o quebra-molas, a portaria, o sinal. Tudo era familiar ainda, e trazia à tona um sentimento bom que há muito insistia em se esconder.

Fechou as mãos e deixou as veias pulsarem intensamente. 30 batidas em 10 segundos. Se ainda tivesse 15 anos, seria um adolescente apaixonado. Do alto de quase três décadas de existência, no máximo era uma aflição de quem não sabe como se comportar diante do inevitável. Ela sorriu, como sempre. E falou tudo com a segurança característica, como se não houvesse dúvidas por dentro. E cada gesto e palavra ia lembrando o porquê de ele já ter se sentido tão bem ali, e ajudava a deseja-la por perto novamente.

Abriu a boca e balbuciou qualquer frase sem nexo, apenas para si. Não tinha como não ser de outro modo. Era surpreendente como, na sua presença, ele se desconcertava. Coisa de desarticular a ordem das palavras e das idéias, de deixar tremendo sutilmente. Talvez por ela ser a única que o desafiasse, completando e igualando. Cada minuto era saboreado segundo a segundo, e todos os que se foram ainda eram insuficientes para o satisfazer. Queria mais, queria sempre, queria tudo.

Fechou o bloco e parou de anotar. Preferiu esconder as palavras a se entregar. Sabia que o caminho não tinha mais volta, e que a imaginação o levava para longe demais do que era o real. No som, o recado era simples: “não seremos um casal de velhos”. Pegou mais um café e sorriu. Definitivamente, aquele filme, afinal, não era para eles, fácil de perceber desde a primeira palavra e sem o ponto final.

Abriu a janela. Prendeu as idéias. Soltou um berro. Fechou as cortinas.

Era o retorno.

Sexta-feira, Dezembro 08, 2006

Reiventando o irreparável

Eu queria ter te dito a palavra mais doce. Queria ter te dado o abraço mais apertado, o beijo mais carinhoso, o afago mais adequado. Queria ter olhado nos seus olhos sem medo, ter revelado meus pensamentos mais bobos, ter sussurrado palavras sem sentido. Queria ter cantado aquela música que sempre foi nossa, ter dado um sorriso pela sua felicidade, ter tido aquele seu sorriso que me trazia felicidade. Queria ter enxugado suas lágrimas na hora que escorriam, ter soluçado no seu peito por estar angustiado, ter desabafado por agir sempre errado. Queria ter sentido mais vezes o seu cheiro, ter visto mais filmes abraçado, ter dormido ao seu lado. Queria ter contado estrelas com os dedos, ter escrito poesias inadequadas, ter ouvido você respirar e pensar como era bom estar vivo ali. Queria ter tido mais almoços, jantares. Queria ter preparado o café da manhã, ter tomado sorvete de fim de tarde, ter bebido vinho de madrugada. Queria ter sabido o que você sempre deixou óbvio, ter dado o presente no dia certo, ter ligado quando era hora. Queria ter a consciência de que ainda era tempo, ter a decência de não fugir do erro, ter a sapiência para não insistir quando já é tarde. Queria ter dito como eu gostava de você, ter mostrado como você era a pessoa certa, ter revelado como eu era um tolo por não reconhecer. Queria ter dado o meu melhor por saber que tinha o melhor de você. Queria ter segurado a sua mão e falado o quanto eu precisava de você, ter pedido ajuda para não sumir, ter sido sincero para não precisar me envergonhar. Queria ter deixado você ser a única, porque de fato era, e não temer isso como um adolescente que não sabe o que fazer quando começa a amar. Queria não ter perdido a esperança de que você ainda estaria aí, ter de volta a sua vontade de estar comigo para o que fosse a vida juntos. Queria ter berros, suspiros e suas mãos entre as minhas. Queria ter prometido que faria você feliz e cumprido. Queria ter feito você se sentir especial como era. Queria ter saído do meu mundo para criar o nosso e de mais ninguém. Queria ter sido clichê para poder reinventar o amor ao seu lado. Queria voltar e ser feliz. Porque eu só queria ter sido eu como deveria ser para você para você ser para sempre o que eu queria para mim. E fim.

Domingo, Abril 02, 2006

O Branco

Resolvi lidar com a brancura das folhas. Não por achar que há algo de útil para ser colocado nelas, mas por acreditar que esse deve ser o destino de quem nasce plantando o vazio. E não me importam também as palavras que nelas depositarei, pois hoje o sentido não é o que me move. Simplesmente sinto, e por isso escrevo. Sou mais um na tarefa de trazer para o tátil o que é abstrato, comum e redundante. Desnecessário até, eu diria. E mesmo assim faço. Tolo, simplório e mambembe. Direto.

Para começar, um nome. Lara. Alguns pediriam a idade, outros as características físicas. Eu dou apenas o nome e um hábito qualquer, porque ela é só mais uma, como todos somos. Depois, um sentimento. Saudade seria óbvio, tristeza seria cômodo. Talvez a ira. Mas que personagem conquista o leitor por algo tão negativo? As pessoas gostam de ler sobre aquilo que elas nunca serão ou aquilo que até sonham em ser. Mas o amor esgota o assunto na mesmice que recai sobre si. E eu não quero conquistar ninguém. Fico com a apatia.

Depois, viria o quando. E o como. E o onde. E o porquê. E eu não sei responder, nem quero, nem pretendo. Ao inferno as convenções, a lógica. A folha era branca, e eu só senti que ela não podia continuar assim. Podia ter feito desenhos, rabiscado, amassado, jogado fora. Mas existem as malditas palavras, e elas insistem em brotar dessas mãos inquietas de pseudo-escritor. Não, não cumpro minha sina. Não sou poeta por direito. Sou flaneur por linhas simetricamente colocadas no vazio dessa cor angustiante.

Mas Lara existe, e me olha. E me pede palavras em sua boca, pensamentos em sua mente, paixão em seus afetos. E ela caminha pelo quadrilátero vazio de onde a luz brota preguiçosamente, afoita com sua mesmice. Enquanto isso, só me sobram as palavras iguais, que definem um sem-número de universos já cantados em verso e prosa. Ela não sorri, porque não a ensinei. Mas vejo nos olhos que não fecham as lágrimas que não existem e o choro que teima em silenciar. Por segundos sou capaz de me arrepender de sua existência. Apenas segundos.

Porque o momento seguinte já é meu, e Lara não está mais aqui. Mas seu cheiro ficou no ar, enquanto o papel se curva ao vento que lhe sopra novos caminhos ao ouvido. São só palavras, alguém me avisaria, mas somente os arrogantes acreditam em sua mente, e não fujo à regra. Escrevo sobre o nada como se soubesse tudo, e crio no vazio um planeta completo. Deserto. De letras que crescem para se tornar palavras que se perdem para se tornar exatas. De gente que se cria personagem para ser real no que não existe.

Enquanto isso, Lara espera. Não tenta mais fugir da folha, não acredita que seu destino chegará ao ponto final. As linhas já não existem mais, nem para mim nem para ela. Acabamos sendo silêncio, autor e personagens tornando-se um.

E há outras folhas no bloco que insistem em me chamar.

Segunda-feira, Fevereiro 27, 2006

Atores Perfeitos

Ele se virou para o lado e os seus olhares cruzaram novamente. Apesar do tempo longe, foi capaz de sentir aquilo da mesma forma que há mais de um ano. A respiração se manteve forte, o orgulho também, e em poucos segundos já fingia que nada havia acontecido, que estava imune àquele reencontro.

Mas não estava. E ela sabia disso, e parecia olhá-lo ainda mais fixamente, com a certeza de quem um dia foi capaz de enxergar muito além da superfície dura e arrogante. Suas mãos eram as mesmas, trêmulas, só as unhas tomadas de cor se afastavam do passado. Ela havia mudado, sem dúvidas. Mas não tanto que ele também não a reconhecesse.

Falaram. Ele falou. Ela tentava. Havia uma tensão no ar, algo que qualquer um seria capaz de prever, menos os tolos que se consideram imunes ao que vem quando se mexe em baús de antiguidades. É como olhar uma foto antiga e não se perguntar o que passava na cabeça naquele momento. Ou ouvir uma música de outra década e não ser tomado pelas reminiscências de uma situação qualquer. Ilusões próprias. Necessárias para a sanidade.

E então veio o objeto. "Afinal, foi para isso que viemos aqui, não é?". Não, óbvio que não. Eles foram para estudar um ao outro, ver quem sobreviveu melhor, quem percorreu outro caminho, quem consegue ser inabalável, quem é mais forte... ou quem cede primeiro. Porque alguém vai ceder, vai dar o primeiro toque, o primeiro passo, e se render ao inevitável do reencontro.

Não. São olhares, gestos ensaiados, tímidos, pensados, relutantes. Distantes, ainda que próximos. Não avançam. Não podem avançar. Aprenderam a ser românticos e dali nada farão.

Talvez tudo vire palavras. Costumam ser assim. Dizem para si o que não diriam para o outro. Defender.

Foi para isso que voltaram ali. E ainda voltarão.

Sexta-feira, Janeiro 20, 2006

Dos sons que tiram os sonhos daqui

Treze vezes o relógio bateu e ele relutou em acordar. Mexera-se levemente, abrindo os olhos por não mais do que dois segundos para encarar o raio de sol que fugia por entre a fresta na cortina. Estava calor. Ainda não conseguia raciocinar direito, a cabeça lenta que acabava de despertar. Aos poucos, lembrara que sonhara durante a noite. ?Mas todos sonham?, o leitor irá dizer. E eu digo: não ele. Não ele, que desconhecia até o sonhar acordado. Cético, talvez sequer conseguisse visualizar a realidade. Mas as treze badaladas do relógio lhe disseram algo, e a preguiça precisava lhe abandonar. Seu corpo fez algum esforço, reclamou, mas enfim tomou movimento.

Levantou-se. A cozinha não era longe, e sabia que havia um resto de leite na geladeira. No caminho, jornais espalhados tentavam atrapalhar os pés que cismavam em se arrastar. Esfregou os olhos com força, tentando injetar ânimo em ao menos um dos sentidos. De pouco adiantou. Era início de tarde, mas tudo cheirava a manhã. Mais uma vez a lembrança de um sonho tomou-lhe a mente e se foi com o primeiro gole de leite. Era bom sentir um líquido que não tirasse seus sentidos descer pela goela depois de tantos dias. A cabeça agradecia.

Estava desperto agora. Inquieto. Sentia fome. Sabia bem aquela sensação. Afinal, sentia fome há vários dias. Nem por isso tentava comer. Talvez achasse bom sentir seu corpo declarando-se vivo. Nessas horas costumava lembrar que havia algo com que se preocupar além de olhar o teto ou estalar os dedos. De vez em quando, tomava uma atitude e fazia algo de produtivo. Refletiu por alguns segundos, buscando algo que lhe desse sentido naquele cedo-tarde dia. Nada lhe ocorreu.

Deitou-se. A sensação de que tivera um sonho antes lhe preencheu outra vez. Fechou os olhos. Quis dormir.

De repente existia algum sentido que o tempo não dissesse. Calou os sons que lhe tiravam dali.

Sábado, Novembro 05, 2005

"Indo embora, deixo-te um adeus"*

E o silêncio fez-se de novo quando o telefone alcançou a mesa. Não o silêncio do espaço, mas o silêncio da alma, aquele que confirma dolorosamente o vazio deixado por uma partida, a angústia causada por uma recusa, a tristeza vinda de uma palavra não-dita. Era ele contra o mundo, de novo. E não havia riso, por isso do silêncio fez-se o pranto, constante e intenso. Uma dor que saía dali e se respaldava ao sul, como se migrasse em busca de lugar melhor para se alojar. Mas lá só encontrava felicidade, alívio, e retornava ao seu centro, solitária, única e inquietante. Enquanto isso, as mãos percorriam a face, tentando em vão conter as lágrimas, e a boca se retorcia, trêmula. Ele pensava conhecer a sensação, mas só agora, vivendo, entendia o que tantas vezes as histórias de amor tentaram lhe dizer em forma de aviso. E chorava como criança, desesperado, buscando justificativas que não existiam e repetindo para si mesmo que não podia ter sido em vão. Talvez precisasse ter aprendido a não esperar tanto, ou então a não acreditar que existia respaldo no impossível. Só que era ingênuo no que falava ao coração, e se deixava trair sempre que buscava melhorar. Dessa vez, porém, havia sido mais. O gesto era familiar. A dor, incomparável. Os protagonistas os mesmos. Bastava mudar o final.

E foi assim que ele partiu para não mais voltar.

*por Marcelo Camelo, em "Tenha Dó"

Domingo, Outubro 16, 2005

Da distância que teima em voltar

Levantou-se e partiu. Apressado, descalço, ansioso. Não tinha caminho, nem direção. Desde cedo aprendera a se guiar pelo que não era óbvio. Era sempre assim. Acordava e seguia, fazendo do seu dia o que o dia queria que fosse. Vítima da casualidade, vivia sorrindo. Talvez minimizar as expectativas também minimizasse as decepções. Era uma hipótese, mas ninguém sabia ao certo. Ele não falava. Apenas seguia, cabeça erguida, olhar atento. Para onde, não faria diferença. Bastava ir.

Cada dia era o começo de tudo. Como uma tela em branco que, recebendo pinceladas de preto a esmo, ganha forma e sentido, sombra e luz. Andando, tudo ia se preenchendo. Estrada, tela, vida. Partida virando chegada. Chegada virando sentido. Sem direção, sem noção, sem pensar. O vento mudando de lugar. O silêncio dizendo que sim.

Apenas o coração a esperar...

Quarta-feira, Agosto 31, 2005

Antes da fuga

Ele olhava para as mãos, fascinado. Talvez nunca tenha reparado antes nos dedos, ágeis, finos e delicados, deslizando sobre as teclas do piano. Não ouvia a música, nem faria diferença. A visão era o sentido principal, olhos parados em contemplação. Não sorria. Mal sabia se respirava. No peito, oco, um sinal de alerta. E as mãos seguiam seu caminho, sua rotina, seu destino.

Um vento leve soprava em seu rosto. A janela entreaberta era a possível culpada, de onde vinha também o raio de sol que se insinuava preguiçoso ao final da pauta. Não era um dia quente, nem frio. De repente nem mais era dia, ou o mesmo. Sabia que as horas de sua vida não respeitavam a imortalidade que os belos momentos mereciam, por isso aprendera a ignorá-las. Contudo, não contava o segredo a ninguém.

Era preciso ser esperto, afinal.

Terça-feira, Julho 26, 2005

Quando dois e dois são nada

Duas vezes eles se viram, e não mais do que isso seria necessário.

Na primeira, mal trocaram olhares, tímidos ou receosos que eram - só notaram um ao outro, o que bastava naquele espaço mínimo onde pessoas dançavam despretensiosamente. Eram dois estranhos em um lugar mais estranho ainda, com pessoas que pareciam se ignorar, fechadas em seus mundos de luzes, álcool e som. A eles só restava a solidão da normalidade, de quem ainda achava que o ser humano nasceu para se relacionar com o outro, mas eram traídos pela própria falta de iniciativa, e assim ficavam como todos os demais, fingindo não perceber nada que se passava à sua volta. Seria uma noite curta, ainda que eles não a sentissem assim.

Ela queria pegar sua mão. Ele, dizer coisas ao seu ouvido. Só que se afastavam, quase alcançando o limite das paredes. Saíram de lá em horas ímpares, sem serem um par. Sem esperança de se reencontrarem também.

O segundo encontro parecia inadequado, mas inevitável. Fazia sol, havia gente na rua e pouco espaço para pensar. Eles eram filme, e se esbarraram de repente. Ela sorriu desajeitada, ele pegou sua bolsa caída ao chão. Pediram desculpas, mas não se foram. Também nada diziam. Sabiam que não eram dois quaisquer, mas não sabiam como agir para não sê-los. Atabalhoados, seguiram adiante. Ônibus e carros também. Ela na contramão do fluxo, ele na contramão da vida. Talvez pudessem ser felizes assim.

Mas seria o mesmo se ela tivesse olhado para trás?

Domingo, Junho 19, 2005

Saquarema (ou um lugar de mim que ainda não se perdeu)

Eu via a bicicleta, mas não via mais a rua. Era de barro, eu me lembro, nada daquele cimento que só machuca quando a gente cai e que deixa tudo tão cinza que dá até vontade de pegar o lápis de cor e pintar por cima para ver se o mundo volta a ter vida. Mas só tinha a bicicleta, e eu sabia que precisava subir e andar.

Havia o sol também, eu sentia, mas parecia que o calor que vinha de fora não tirava o frio que batia aqui dentro, e que eu mesmo grande agora não ia conseguir alcançá-lo como um dia achei que ia ser capaz. É longe, eu sei, mas sempre sonhei em ir até lá. Que nem quando vi a lua pela primeira vez. Não, não era a primeira vez, com certeza não, eu já tinha visto antes, mas não apaixonado, e aí é muito diferente. É incrível como tudo muda, e como você cresce, e como se torna pequeno para tanta vontade. O fato é que eu também queria ir até lá, e nunca consegui. Nem a pé, nem de bicicleta - por mais que tentasse, sempre estava longe.

Eu via o balanço, a árvore, a bola jogada no quintal e o verde-amarelado da grama sob o sol do fim da tarde, mas não tinha mais ninguém ali. Se fechasse os olhos, talvez ainda fosse capaz de me ver correndo com meus primos pra lá e pra cá, despreocupados, crianças que nunca deveríamos ter deixado de ser. Ali éramos vivos, éramos amigos, éramos felizes. E de repente a gente cresceu, e o mundo diminuiu, e os sonhos escaparam dos olhos brilhantes para virarem chagas nas mãos duras de realidade. E o que sobrou para hoje, além de pequenos pontos que vivem a cintilar nas nossas memórias?

Havia o vento também, os cabelos sentiam, mas parecia que ele estava a favor de nós, soprando nossos caminhos e dizendo que era preciso seguir em frente, levando a vida a seu sabor. Só que a gente acaba sempre indo contra, e tudo fica tão difícil que uma hora as pernas sentem o cansaço e só nos resta sentar e esperar. Não, não é pra ser assim, a gente não pode ver o filme da vida sentado na primeira fila, precisa ser protagonista, diretor, roteirista... dono. E esquecer essa história de destino, essa coisa de que todos um dia viramos adultos sérios e comprometidos com o bem da humanidade. Um absurdo, se nem o nosso bem a gente se preocupava em fazer, apenas vivia, e isso bastava.

Eu via possibilidades. Eu via estrelas. Eu via vocês. E éramos de novo os mesmos inocentes.

Segunda-feira, Maio 23, 2005

Finitude

Estendeu a mão e não alcançou nada. Estranhou aquilo, mas tentou de novo. Vazio. Seus olhos, porém, continuavam a ver as formas à sua frente. Não fazia sentido. Era capaz de sentir a energia que vinha, uma força de presente e de passado, com referências que o inquietavam. Tinha a sensação de que as coisas sempre estiveram ali, apenas esperando para serem associadas. Só ele era capaz de ver. E ela. Só que ela já não mais queria enxergar, deixava as luzes se apagarem e as formas se esvaírem, mesmo sabendo que bastava o seu olhar para tudo voltar a existir. Os braços dela agora estavam cruzados, e sozinho ele não conseguia alcançar. Mas tudo lembrava, tudo o chamava, tudo ainda era. Não haveria de sumir, pois já tinha vida própria - não eram coisas simplesmente, mas as coisas deles, construídas, planejadas, sonhadas, com ou sem forma para o mundo, reais. E é por isso que os olhos dele ainda vêem, mas as mãos não conseguem tocar, porque nunca tocaram, nunca puderam sentir como era a matéria. Não que não tivesse desejado; somente não havia ido até lá. Assim, fechava os olhos toda noite esperando não ver mais nada ao acordar, ainda que soubesse quão inútil aquilo era. E se via feliz depois porque as coisas estavam dentro de si, fortes, pulsantes, intensas, e o vazio não era verdadeiro. Promessas, "pontos-em-comum" e o que ainda estava por construir. Tudo como sempre e como nunca. Por isso as mãos dele insistiam em buscar - só cessariam se ele parasse de existir. Os olhos fugiam, mas não tinham por quê. Aquelas luzes jamais iriam se apagar.

Sábado, Abril 23, 2005

Pequeno dicionário do silêncio e do pensamento

Abria a boca e não emitia um som sequer. Sentia-se preso dentro de seu próprio corpo, os sentimentos pedindo para saírem e ele, angustiado, incapaz de libertar tudo aquilo que apertava o peito. Doía não poder mostrar o que tinha em si, ainda que fosse capaz de compreender tudo aquilo que o cercava. De sua boca vinham apenas grunhidos impossíveis de ser entendidos, um misto de angústia e vontade de liberdade, uma aflição que parecia não ter fim. Talvez por isso seus olhos dissessem tanto, cada olhar imprimindo uma verdade ao mundo que poucos seriam capazes de notar. Mas a visão humana era limitada, ele sabia, por isso, por mais que enxergasse além do óbvio, aquilo era só seu, não havia como compartilhar. E assim muitas vezes pensava em se entregar, desistir, porque o caminho que ele via era só seu, e não tinha sentido seguir sozinho.

Só que havia um farol, então continuava ali. Uma luz lhe dava a direção, e o brilho que vinha do horizonte era tão intenso e reconfortante que o fazia insistir em perseguí-lo. Ali não precisava dos sons, nem dos gestos; quem o visse perceberia que era o lugar certo, e que ali encontraria a paz. Porque não havia palavras que dissessem tudo quanto era necessário naquele instante, que fossem precisas o suficiente para explicar o que só se sentia. Não havia prisão. Não havia corpo. Não havia nada. Mas havia sentido. E era tudo que bastava para ele se sentir bem assim.

Um dia, porém, tudo era escuro. A luz não mais piscava, os sons não mais existiam, o olhar não mais falava. Era só tristeza, um reflexo opaco num espelho partido.

Nunca entendera o que se passara para a vida se transformar daquele jeito. Como não tinha as palavras, era incapaz de explicar.

Melhor seria se ficasse assim.

A isso deram o nome saudade.

Domingo, Abril 03, 2005

As formas que se tornam parte *

* com os devidos agradecimentos à Amanda pela frase inspiradora do texto.

Ela pedia o silêncio de volta enquanto abria a gaveta da cômoda. Da caixa de madeira, cartas caíram por cima do lençol molhado de lágrimas, abertas grosseiramente com a ânsia típica dos amantes. Sentou-se. As pernas cruzadas, os óculos recostados na ponta do nariz, a luz baixa da luminária escondendo-a na semi-escuridão. Eram palavras agora, não mais do que palavras, mas para ela eram tiros, facadas, tapas. Era dor. E só ouvia barulho agora dentro de si mesma. Cada parte sua parecia gritar, querendo ir embora de vez. Mas ela nunca se separava, e só o que fazia era voltar ao passado, como se assim o tempo fosse passar. E toda noite aquelas cartas estavam ali, aquela cama estava ali, e ela não estava mais.

O ritual era sempre o mesmo, e toda noite começava e terminava da mesma forma. Lia cada palavra já decorada, levantava-se, abria a janela, respirava fundo como se pudesse tragar a pureza da lua lá fora e retornava para sua penumbra, deixando o pensamento vago e o coração aflito. Abria um livro, olhava para as outras palavras, aquelas que eram ditas para todos e para ninguém, e sabia que ali não havia o seu sentido. Só não percebia que nas cartas também não, porque aquela não era mais sua vida, nem ele era mais seu. Como não era mais seu o sangue que escorria quando fechava os olhos ou os sussurros que saíam de dentro de si quando tentava se calar. Só ela ainda acreditava que era ela.

Talvez porque a porta ainda se movesse, o armário se tornasse imenso e ela fosse tão pequena dentro daquele quarto, não conseguia se encontrar mais em si. Mas a verdade é que era mais dúvida que certeza, e não havia como deixar de ser assim.

Ali, esperava. E escrevia apenas o que precisava ainda dizer.

"Lembrei de você no meu fim também..."

Segunda-feira, Março 07, 2005

Sobre o que é real e coisas pequenas

Achava que conhecia todas as dores do mundo, mas no seu peito estourava agora uma que era avassaladora, única. Mal conseguia respirar, e em sua consciência pairava a dúvida de um outro destino não traçado. Pesava. Não o peso do mundo, como se costuma dizer; um ainda maior, insuportável: o do vazio. E aquilo que parecia paradoxal nele tomava forma, cristalizando uma tristeza que cismava em se refugiar na mudez de um soluço contido, nas lágrimas amargas que nasciam e morriam nos olhos. Era dor e inverno, melancolia e outono. Era silêncio, um silêncio injusto e indesejado, característico das grandes perdas. Era solidão. Era ausência. Era.

Porque ela foi. E se foi.

Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005

àsvezesquasenuncaparasempre

Ela fechou os olhos, ele esticou a mão. O rosto fora tocado de leve, enquanto a lágrima que escorria de um dos olhos era desviada de seu fatídico destino, o chão. Não havia som ali, nem mesmo o choro contido de um sofrimento incomum. Talvez nem respiração existisse naquele momento; apenas um gesto e nada mais. O tempo até poderia ser medido, se um instante como aquele coubesse em um lugar pequeno como o universo, mas eles mesmos não desejavam saber. Estavam, eram, foram. O que mais precisava existir?

Ele mexeu os lábios, ela levou seu dedo a eles. Não havia porque buscar palavras, pois elas não seriam capazes de significar algo assim. Não devia existir movimento, sob o risco de esvanecer o belo. Eram dois e um só, a união perfeita da imperfeição humana. Impossível definir o que se passava em corações paradoxais como aqueles: eram dor e alegria, distância e companhia. Completavam-se, apenas. Não sabiam ainda, é verdade, e talvez nem saberiam um dia, mas a incógnita não os incomodava. Já sabiam o principal.

Havia o toque da mão, o rosto lívido e o ar rarefeito, nada mais. E tudo era suficientemente único ali.

Terça-feira, Fevereiro 08, 2005

Reinvenção

Ele olhava para as mãos trêmulas e sentia que havia algo de errado. Ainda que não sentisse nada diferente, seu corpo parecia reagir de forma estranha ao que o cercava naquele instante. O cenário permanecia intacto: vidros quebrados, móveis revirados, fotos e cartas espalhadas. Não conseguia lembrar a origem do caos que se instaurara ali, apesar de saber que tinha sido ele o responsável por tamanha destruição. Havia perdido o controle, mas não conseguia ainda se dar conta disso.

Seus olhos encheram d?água quando avistaram, no sofá, um velho porta-retratos destruído. Tinha colocado fim à única lembrança de sua infância que ainda guardava: uma foto de quando era criança, em algum carnaval já distante, inocentemente fantasiado de Super-homem. Não conseguiu deixar de perceber a ironia do momento: o pequeno infante, vestido de super-herói, despedia-se do mundo de fantasias e surgia como um homem adulto, fraco, indefeso, despreparado. Uma lágrima tímida escorreu pela face, então.

Caminhava pela sala do apartamento, analisando o estrago que ele mesmo tinha promovido, ainda que sem consciência. Nada, porém, doía mais do que aquele porta-retratos abandonado no sofá, desfalecido. Procurava em cada objeto fora da ordem natural a razão para aquilo tudo ter se originado, mas só obtinha novas perguntas. Voltava a partes remotas de seu passado a todo instante, e se odiava mais por isso. Preferia passar longe de tudo aquilo, e só agora notara o quanto estar ali ao longo de tanto tempo o fazia mal.

De súbito, parou frente ao espelho. Examinou-se atentamente. Os cabelos brancos começavam a surgir, apesar da idade. Seu semblante trazia o peso de quem vivera infeliz até então, com um sorriso que nunca se realizava e um olhar que trazia dor. Da rua, ouvia vida. Sons de folia. Correu até a janela e observou a alegria lá embaixo. Sentou-se, as pernas balançando ao ar. Era um dia quente. Virou-se para a sala, notou mais uma vez a confusão que havia causado ali e entendeu finalmente a grande metáfora que havia feito de sua vida.

Pulou para dentro e correu para a rua.

Crescera ouvindo que o ano só começava depois do Carnaval.

Talvez ele também precisasse ser assim.

Sexta-feira, Dezembro 24, 2004

Roteiro inacabado

"O que você faria se não tivesse medo?"

A pergunta visitava sua mente de minuto em minuto, em uma repetição enlouquecedora.

Procurava centenas de respostas, mas, no fundo, já sabia.

"Arriscaria para ser feliz".

E foi assim que ele resolveu.

O amor não tardaria em se concretizar.

Segunda-feira, Dezembro 13, 2004

Sobre ele, sobra ela

Ele tinha medo. Sabia que não fazia sentido, sabia que a situação era favorável a ele, mas mesmo assim não conseguia obter a segurança necessária para não se preocupar a cada segundo com a possibilidade da perda. Talvez porque, pela primeira vez, tivesse a noção de que tinha em mãos algo de muito de valor, algo com que sempre sonhara e nunca conseguira alcançar. Custava até a acreditar que tinha alcançado, e muitas vezes colocava tudo a perder por causa dessa desconfiança. O fato era que ela estava ali, apesar de todas as dificuldades existentes, e ele simplesmente não sabia como fazer para não deixá-la sair de perto. Deveria saber que, para isso, só bastava sê-lo, pois fôra assim que chegara até ali. Mas não. Tinha a sensação de que tudo que fizesse era pouco, que a qualquer instante os castelos de areia poderiam ruir e seus sonhos se perderiam de vez. E não adiantava as palavras ditas, as confissões trocadas e as juras de amor infinitas; ele não se convencia, talvez traído pela própria consciência de quem não aprendeu a amar e não acredita que possa ser amado por alguém. Por vezes se rendia à impossibilidade da situação, descrente na concretização de um sentimento que parecia atravessar quilômetros em estradas sem fim. Porém, ao dormir, tinha a certeza de que o pensamento sublimava, e eles se encontravam, ainda que no campo em que só os amantes à moda antiga costumavam caminhar. E era ali que tudo fazia sentido, que não havia imperfeições, dúvidas ou dificuldades, apenas dois se tornando um, a felicidade no estado mais simples de sua complexidade. Quando a chuva ia embora, mas o sol não aparecia, nem a lua, porque não havia mais a noção de tempo, nem de espaço, só de que não há medida para a paixão. Porque o amor não se dá calado, eles bem sabem (ao menos nos sonhos eles sabem). Ele tinha medo, é verdade. "Não há motivos para isso", ela costumava dizer. Mas ele sabia que o amor não podia ser compartilhado além de dois. Por isso tinha medo. E ela continuava ali.

Esperando.

Domingo, Dezembro 05, 2004

Texto novo sim, é claro. Mas não aqui. No outro. Driving In The Rain.

Sábado, Novembro 27, 2004

.viena.paris.rio de janeiro.

"6 anos podem ser 6 dias", era só o que ele pensava quando pousou a cabeça no travesseiro e tentou, em vão, dormir, naquela que seria a noite curta mais longa de toda a sua vida. Já era quase amanhecer quando a voz sumiu e ele passou a sonhar, ainda que seus olhos se mantivessem abertos. Mas não se importava. Havia redescoberto uma direção, encaixado as peças de seu quebra-cabeça existencial depois de uma interrupção abrupta e inexplicável. O outro lado continuava ali, e nada parecia absurdo. Ainda que o tempo tivesse sido tão impiedoso a ponto de manter o vazio existente por tanto tempo, era fácil continuar agora. Eram iguais a antes, ainda que diferentes por tudo. E ele sentia que algo não se perdera dali. O sentido se estabelecera com a possibilidade do reencontro a existir. Porque não faria sentido tudo acabar com um adeus ao entrar no avião.

Terça-feira, Novembro 16, 2004

Entre engrenagens e tintas

"Toda decisão tem um peso, não adianta tentar fugir", disse ele após olhar nos olhos dela e sentir que havia dúvida pairando ali. Vivera aquela situação incontáveis vezes ao longo de sua breve existência, talvez por isso a frase saísse de seus lábios com tanta facilidade que não representava os tortuosos caminhos que o levaram a essa conclusão. E ela permanecia imóvel, serena, como se não existissem palavras que a atingissem naquele momento. Mas ele sabia que por dentro ela estava dividida, que, por mais que ela tentasse fugir, uma hora a resposta surgiria, e a opção acertada surgiria. Acertada porque aprendera que não havia no mundo opção "errada", todas eram acertadas, ainda que sob uma ótica que só alguns pudessem entender - e isso seria a causa do sofrimento. O fato era que ele sabia que estava avançando no escuro. Não temia, porém. Sempre repetiu que a vida é feita de riscos e curta demais para se ter medo de buscar o melhor. Pena que não conseguia convencê-la a pensar assim também.

"Toda decisão tem um peso, não adianta tentar fugir", pensava ele, enquanto ela desviava de seu olhar. Ele sabia que ela tinha muito mais a perder, mas era seu egoísmo que falava mais alto, e só conseguia pensar em como seria bom se ela se resolvesse por aquilo que era favorável a ele. No fundo, tinha receio de não saber arcar com essa decisão, só que sabia que a certeza apenas seria alcançada pela tentativa. Era preciso achar o lugar dos dois, encontrar-se nela, realizar-se, completar-se, ainda que por um breve momento ou mesmo por toda a eternidade. Não se importaria em ser clichê. Desafiaria o mundo, se isso se mostrasse necessário. E iria insistir. Ainda acreditava em sua intuição, presságios ou coisas do gênero, por mais que fosse um resquício bobo de infância ou pura ingenuidade dos amantes de outras décadas.

"Toda decisão tem um peso, não adianta tentar fugir", escrevia ele, ao mesmo tempo que ouvia Sinatra cantar "Can't Take My Eyes Off Of You" e olhava para o relógio apontando onze horas da noite.

Era terça-feira, chovia no Rio de Janeiro e ele estava em casa. Sabia que o mundo lá fora fugia de seu alcance, mas mesmo assim não temia. Apenas esperava.

Como um ponto final que pacientemente aguarda o seu lugar para selar o destino de um texto triste.

Segunda-feira, Novembro 15, 2004

Se não há atualização aqui, ressuscita-se lá.

Depois de um ano, o DITR está volta. É só clicar aí do lado e ler.

Em breve, texto novo nesse espaço.
Abraços!

Quarta-feira, Outubro 20, 2004

O sentido de lá

As ruas eram tortas, mas ele cismava em andar em linha reta. Tinha os passos firmes, a respiração acelerada e a cabeça erguida, traços de quem sabe o que faz. Por dentro, porém, dividia-se em vários, fragmentos de alma que se ressentiam a cada emoção despertada. Aprendera desde cedo que o ser humano era aquilo que aparentava ser, e não o que era de fato, e talvez por isso acreditasse mais na sua imagem projetada do que em sua própria essência. Era criador e criatura em contato sistemático, harmonia de cores como somente o preto e o branco são capazes de compor, fortalecidos pelo contraste. Contraste que ele mesmo era; dicotomia, paradoxo. Imagem ausente frente ao espelho, formas difusas em uma fotografia. Era único, ser singular e irreal. Porém cismava em andar em linha reta, com os passos firmes, a respiração acelerada e a cabeça erguida, traços de quem quer se convencer de que é maior que o mundo, ainda que o céu sempre prove com sua infinitude que há muito mais além de si mesmo. Mas o olhar seguia perdido em esperanças vãs, na crença de que ainda podia ser diferente, melhor do que fôra até então. E aí não bastava o mundo a confrontar, porque o ato de desencorajar já não era o bastante. É quando se descobre que há a capacidade de ir além, ainda que a insegurança insista em por vezes levar para baixo a sensação de plenitude, lembrando que nunca se sabe o que é o certo a se fazer. Só que as linhas tortas só assim as são para quem não enxerga que só há um caminho a se seguir, e que mesmo o erro é o acerto inevitável da imprevisibilidade da vida. Ele sabia. Por isso nunca olhava para baixo, nunca cerrava os punhos ou relutava em pisar em qualquer caminho. E era feliz assim.

Segunda-feira, Setembro 27, 2004

Depois das luzes acenderem

Sempre achei que haveria um momento que justificaria toda a nossa existência. Aquele em que tudo se esclareceria, que as respostas seriam dadas e o verdadeiro sentido enfim apareceria. Talvez fosse um sentimento pueril, uma inocência perdida que atenuasse qualquer sofrimento, mas o fato é que sempre esteve comigo, apesar de poucas vezes eu manifestá-lo. Até chegar o amanhecer e o pôr-do-sol, e Viena e Paris explicarem para mim que eu não estava errado, que mesmo após 9 anos algo ainda podia fazer sentido para dois, e que comigo, um dia, não haveria de ser diferente. E as expectativas frustradas e as buscas insanas e as tentativas equivocadas seriam mero pretexto para alcançar o fim, por saber que há um, e somente um, encontro que se completa, que se faz por inteiro. Com olhares, gestos e sensações que nunca se igualam, e que por mais que se viva uma eternidade ficará como a mais forte lembrança. Porque há sempre o reencontro para quem acredita que o primeiro era o único e o certo, e não há mal algum em crer no amor romântico e eterno mesmo depois da adolescência. Todos nós merecemos, ainda que não tenhamos encontrado até então. Ninguém quer chegar aos 52 anos e se divorciar chorando por nunca ter amado a esposa. Eu não serei assim. Sigo esperando acontecer, pois hoje aprendi que Cèline e Jesse vão sempre me justificar.

Quarta-feira, Setembro 01, 2004

Mal pontuado

Mal ligou o rádio e o primeiro acorde da canção preencheu o ambiente e seu pensamento. Não era preciso ir muito longe para buscar a referência: era a música dela, a mesma que um dia, ao olhar em seus olhos, ele dissera que desejava ter o mínimo de talento para criar algo com palavras que fossem tão apropriadas para defini-la, e que ela sorriu desajeitada e disse que a poesia não tinha dono, desde que o sentimento empregado por quem a declamasse fosse honesto. Podia passar anos sem ouvi-la que não perderia a referência. "Há momentos que são fortes, ainda que breves", ele repetia enquanto se olhava no espelho, os olhos cansados da noite mal dormida e a barba por fazer de quem se sentia vencido pela preguiça. Caía ao chão diariamente, e a sensação de se reerguer era única, uma superação hercúlea. Das mãos não brotavam mais nada, pois estavam fechadas para os ataques às paredes do quarto manifestadas em horas variadas.

A porta do armário não fechava, ela sabia bem, por isso nem se esforçava em tentar arrumar. Até sua mania de colocar tudo em seu devido lugar precisava ter fim. Se nem ela estava se achando apropriada, por que o restante deveria ser? Não havia motivos. Mas ela sabia que não adiantava fugir do espelho, que as paredes podiam ser opressoras se não respeitadas e que tentar ouvir a música que sussurrava ao fundo, do outro lado da casa, era inútil se não estivesse aberta para as conseqüências disso. Anos eram pouco para quem se interessara um dia por mais do que a poesia torta que beira as canções desperdiçadas nas bocas e mãos de amantes ocasionais. "Sou mais do que simples palavras", ela dizia para si, fechada em seu íntimo como quem perdeu a chance de ser diferente do que sempre esperaram que fosse.

Acreditar na fantasia fôra a saída para que tudo caminhasse até então. Alimentar a razão nunca fizera sentido. E tudo parecia tão distante agora que pensar era o que restava. Sem sonho eterno, sem promessa de um novo meio de se viver uma ilusão. Continuar para não acabar. Recomeçar do certo para esquecer os erros. A caneta era a chave, mas só o que se via eram guardanapos rabiscados. Não havia mais versos que unissem os dois. Somente ponto final.

Terça-feira, Agosto 24, 2004

Das voltas, o (re)início

Escreveu a última palavra e sorriu. Chegara ao fim de mais um texto, mesmo depois de tanto tempo sem escrever. Sentia-se livre novamente, longe do bloqueio que o fazia olhar para a folha em branco e só imaginar um destino para ela: o lixo. Cansara de falar das coisas tristes, cinzas e frias, de tudo aquilo que só fazia com que os outros se identificassem pelo lado mais obscuro, pela essência do sofrimento. Não, não era mais o seu caminho. Almejava aprender a usar suas palavras de forma mais positiva, sem clichês de "Londres-em-meio-à-névoa" e de "chuva-que-traz-saudade", e sabia que era possível. Talvez por isso aquela última palavra significasse tanto. Não era mais um peso, daí o sorriso, tão incomum. De fato, não havia sofrido para chegar até ali. Só tinha que achar os meios para continuar.

"Abriu os olhos e ergueu o corpo da cama. O livro havia terminado, a televisão não transmitia um filme que ele não tivesse visto. Olhou para todos os cds expostos na estante e percebeu que a música não trazia significado se enfurnada entre quatro paredes. Precisava soltar as amarras, precisava abrir as janelas e deixar o sol entrar uma vez, precisava sair, precisava. Ir. Sem saber para onde, sem saber por quê. Tal como no dia em que decidiu que devia buscar o seu espaço e se encontrar em si mesmo. Agora era a hora de perceber o que os outros podiam trazer para que ele alcançasse o ser completo, ainda que esse ser completo só se fizesse assim por breves minutos ou segundos. O quarto não era mais suficiente, seus objetos não eram mais suficientes. Seria mais."

Mas como saber o que viria a ser? Continuava rumo ao nada...

Sábado, Julho 31, 2004

Aviso aos leitores

O Rumo Ao Nada não morreu, apenas esteve de férias (longas, eu sei, mas acabaram). Promessa de texto novo ainda essa semana.

Enquanto isso, leiam os textos antigos, há coisas boas perdidas pelo site.

Abraços!

Sábado, Maio 22, 2004

Pecados Capitais

Era claro ainda quando tive seu abraço pela primeira vez. Nem mesmo o tempo nublado poderia estragar o que em mim surgia naquele momento. A vontade era de não soltar mais, aproveitar cada momento daquele gesto dócil, lento e confortável, mas de tão inesperado, só consegui reagir de forma atolada, quase como o menino ingênuo que tem um beijo roubado pela amiga no pátio na hora do recreio e só consegue olhar para os amigos e sorrir, sem graça. Você tinha o domínio da situação ali, ainda que não soubesse disso. As horas que se seguiriam não levariam do pensamento o que acabara de acontecer, e o meu olhar a buscar o seu em meio a centenas de cores de pessoas era independente de mim, desobediente e afoito.

Quando nos afastamos, pairei sobre seus olhos mais uma vez. O brilho deles me lembrou os motivos pelos quais havia me fascinado quando a conheci, e desejei que você voltasse àquela sala mais vezes só para tê-los em minha direção novamente. Balbuciava palavras ilógicas, tentando agradar sem nem pensar como. O intuito talvez fosse apenas prendê-la ali, deixa-la mais tempo ao meu lado, nem que fosse para sentir sua presença me desconcertando. Mas você não se demorou muito, e eu me vi em seguida projetando maneiras de nos encontrarmos outras vezes momentos após, lutando contra a inevitabilidade do dia que iria embora em breve. A partir dali, conformei-me em observá-la ao longe, imaginando que você pudesse estar fazendo o mesmo, calcado em uma ingenuidade que há muito me abandonara.

Inquieto, circulava por todo o local, à espera de que seus passos encontrassem os meus. Por outro momento estivemos perto, mas o tempo que levei me questionando se deveria me aproximar foi o mesmo que a levou embora dali. Passei então a torcer pelo fim, para que a escuridão tomasse conta de tudo ? de repente assim haveria uma nova oportunidade. Nada mais detinha minha atenção. A mente com seu sorriso preenchendo, seu abraço sentido a todo instante, meus ouvidos agraciados com a sua voz. Você já me tinha, mesmo que não quisesse. E eu sabia que a partir de então só seria eu se a trouxesse também para mim.

Já não havia mais esperanças quando resolvi ir embora e a vi ali parada, sozinha, vestida de negro como a noite que se fazia reduto perfeito para um final feliz. Chamei-a. Você sorriu mais uma vez e novamente me abraçou. Dessa vez sentia que aquele era o lugar certo, e correspondi com todo o carinho que queria poder lhe dar pelo resto da vida. Só que uma hora acabou, e quando tive de me despedir, só consegui pedir que você aparecesse pelo menos mais uma vez onde nos conhecemos e ser reticente ao deixar escapar que gosto muito de você. Não devo ter sido tão claro quanto queria, nunca sei sê-lo, porém não saberia fazer diferente com você.

Talvez no dia em que seus olhos não forem capazes de me fazer sentir como um apaixonado, eu consiga fazer você entender o quanto quero você aqui.

Domingo, Maio 02, 2004

Entre pontos e vírgulas

O que é fazer poesia para quem não sabe ler? Será que há cor nas palavras de quem vê em branco e preto?

Era tudo o princípio. Ainda se via a liberdade pelos seus olhos, e o cinza que fechava o dia era exceção, não a tônica de um mundo particular. E ela sabia, por isso se punha a escrever sobre além do que se vê, ainda que essa percepção pudesse ser sua, só sua, e a dele fosse tão fechada que seria impossível acreditar no novo não concreto.

Mas ela tinha a palavra para enfrentar o seu olhar, e ele fugia para não ter sua verdade descoberta assim. Ignorara a poesia até então, certo de que não havia entrelinhas que justificassem a crença em um outro lugar (talvez não quisesse se achar), mas perdera seu lugar no chão enfim. Caótico, buscava sempre o entendimento, só não o esperava por olhos que não fossem os seus. Afastou-se, por fim.

Era preciso continuar a ver o sol se pôr sozinho.

Terça-feira, Abril 13, 2004

Plano-seqüência

Respirou fundo, abriu os olhos e se levantou do chão. Não havia mais ninguém ali, e a chuva que caía do lado de fora era menos triste que as velas acesas por toda parte, ainda que se fizesse luz em meio ao breu naquele instante. Caminhou com passos pesados até a porta, ouvindo atento cada pequeno som que pudesse mudar seu destino (ele não acreditava nisso, mas agora tudo parecia tão irreal que talvez houvesse lógica no absurdo). Chovia forte agora e nada se via lá fora. Abriu a porta. Não havia mais o que o prendesse ali. Seus braços esticados como asas e uma corrida sem pensar. Lágrimas escorriam dos olhos. A água gelada em seu corpo trouxe de volta o alívio que anos de angústia levaram com sua vontade de viver. Nada se via. Só seu corpo parecia capaz de sentir. Abraçou a si mesmo com forças e deixou seu corpo escorregar para o chão. Ali mesmo dormiu, jogado a ratos e sujeira que sintetizavam sua existência.

Terça-feira, Março 09, 2004

Leaving Here

O dia estava calado. Ele olhava para o horizonte, aflito, e não encontrava uma resposta. Sentia que o mundo mudara desde o momento em que aquelas palavras caíram em seus ouvidos, porém não sabia precisar o que viria a partir de agora. Estava sentado em uma praça, o céu escuro de um fim de tarde atípico e o corpo cansado de tanta responsabilidade. Nem as crianças no parque pareciam sorrir, entediadas com seus brinquedos velhos e os olhares displicentes de suas babás. Ele era único ali. Sua pouca idade pesava mais do que o aceitável para alguém que quase nada sabia da vida adulta, e a falta de perspectivas que lhe tomava agora doía demais. Havia perdido a vontade de agir, apesar de não aceitar os acontecimentos. Fora traído em seu íntimo, a confiança abalada no futuro de tudo aquilo e o medo do fracasso de volta à tona. Chorou. Gotas de chuva caíam dos céus, que eram cúmplices mudos daquela tristeza. Apenas um sinal de que podia sentir-se assim era o que ele conseguia enxergar, mas a resposta do mundo tinha chegado enfim. A melancolia da tarde pintava o quadro do fim de um tempo. Não existia mais saída. Fechou os olhos e correu em direção ao mar. A luz do dia acenou tímida, escapando de sua prisão. Os dois estavam livres de novo.

Terça-feira, Março 02, 2004

Irreversível

Apenas um sorriso dela e ele soube que estava de volta. Achava que já tinha se acostumado com a sua ausência, sem sentir o vazio no quarto com a cama desarrumada e os pés descalços, mas a verdade é que ainda era ela ali, e só isso bastava para mexer com ele. As pernas quiseram tremer, confusas, enquanto as mãos se escondiam nos bolsos de criança tímida. Fez-se silêncio apesar do vento que soprava as folhas lá fora. Ela não se importava. Era claro ainda, o dia parecia eterno. Dois passos. Um abraço. Ela parecia não existir. Os olhos dele se fecharam e só abriram quando ela se afastava lenta pela estrada de barro. Ele não foi atrás. Conhecia aquele gesto como poucos. O sol se escondeu em meio às nuvens e ele virou as costas. Havia vencido o reencontro enfim.

Terça-feira, Janeiro 20, 2004

Mais do Mesmo Início

Olhou pela primeira vez depois de anos para a velha foto da casa onde passara a infância e sentiu saudades. Uma lágrima quase escorreu pelo rosto, mas foi contida pela mesma mão que há pouco achara aquela lembrança jogada embaixo de papéis na gaveta da cômoda ao lado da cama. O dia já tinha ido embora, e a pequena luz que iluminava o quarto de súbito tornou-se desconfortável para seus olhos. Achar aquela imagem em papel desbotado, quase sépia, significava voltar duas décadas no tempo, a uma época em que decisões não eram tão penosas e sua vida não havia mudado tanto. Olhava-se no espelho agora e sentia o peso de uma idade que não parecia ser a sua, curvada pelas responsabilidades que lhe vieram tão cedo e sem que desejasse. Não era mais forte, e só ela sabia disso. Antes, pouco importava como reagia ao que lhe vinha de repente, acostumada que era a não se importar com o diferente. Agora, tremia pelo inesperado, fugia do obscuro que o destino lhe trazia como oportunidade. Talvez tivesse se perdido na própria rotina que criara ao optar por viver sozinha desde que tudo se foi e não conseguia mais se achar em si mesma. Estava cansada de tentar definir. Aquela velha foto da casa onde passara a infância lhe dizia muito mais. Viu pela janela seu rosto alegre, brincando sozinha em seu quarto ainda bem nova. Ouviu os latidos do cachorro do vizinho e notou que a mangueira com que brincava no quintal nos dias de sol voltara a jorrar. Fechou os olhos e se sentiu em paz. Lágrimas escorreram livres pelo rosto, mas pela primeira vez em muito tempo, elas não eram de tristeza. Abriu os olhos e a foto continuava sépia. Guardou-a na gaveta, junto com o seu passado de meias rosadas e desenhos em papéis amassados. Era o fim daquela idade. Sabia que precisava seguir em frente.

Quinta-feira, Novembro 20, 2003

Cores da Noite do Fim

Quase dez da noite e só se ouvia o silêncio. Um leve vento brincava com a cortina da janela semi-aberta e a sala estava escura. Deitada no sofá, ela chorava discretamente, cartas espalhadas pelo chão e uma garrafa vazia de vinho tinto ao seu lado. Transbordava angústia, a consciência da solidão lhe perturbando enquanto tentava não sentir mais dor. Não conseguia esquecer aquele abraço, a despedida para um salto que só poderia terminar em nada. Ainda podia sentir o perfume dela, o toque leve nos cabelos que nunca ficam arrumados, e era impossível não sentir saudade. Aceitar os rumos que tudo tinha tomado era o primeiro passo, mas como seguir? Ficara pequena, abandonada em sua nova condição, e só pensava em quanto errou ao não valorizar o que tinha. Só quando o barulho arruinou uma noite de silêncio uma semana antes ela de fato sentiu. Havia sido tarde, porém. Tirou o rosto das almofadas e enxugou as lágrimas. Do sofá, sentiu que o vento a chamava para fora. Caminhou até a janela e a fechou. As luzes do outro lado do vidro ficaram mais fracas, enquantos seus olhos desistiam de olhar. O corpo ao cair no chão rompeu de novo o silêncio. Mas dessa vez ninguém iria sentir.

Domingo, Outubro 26, 2003

Dos Meios, O Fim

Ela andava sozinha, pisando descalça nas poças de lama, os olhos cansados e um cigarro nas mãos. Já estava naquele caminho há um bom tempo, horas talvez, mas não tinha a intenção de parar. Era tudo vazio à sua volta, e não havia ponto de partida ou de chegada; apenas o pensamento buscava algum sentido, enquanto o corpo era automático em seus gestos. A estrada de barro, imperfeita, dizia a que ela que não era única em sua busca, ainda que não se soubesse o que deveria ser encontrado. Perturbava-a a idéia de que sua paz fazia-se no silêncio, e um grito amargo saiu de sua boca involuntariamente. Ventava leve agora, e umas poucas nuvens ao longe anunciavam chuva para depois. Mas o agora era o que importava, quieto e vazio em sua essência.

Ajoelhou-se. Seu corpo agora estava mole, cedendo ao cansaço. Curvou-se para a frente e encostou o rosto no chão. A terra parecia lhe dizer algo, mas não conseguia entender. Sentiu o coração bater mais lento e voltou seu olhar para o céu. Um pássaro voava solitário em meio à imensidão cinza do dia. Fechou os olhos e apertou as mãos. Esperou sorrindo. A estrada de barro lhe dera algum sentido enfim.

Domingo, Outubro 19, 2003

Quase Sempre Nada

“Calma, me dá sua mão...”

Dois passos e ela continua distante. Desde que eles se conheceram parece assim; ele corre em sua direção, ela fecha os olhos e segue seu caminho. Às vezes ele pensa que é uma tentativa inútil, mas basta um aceno dela para se desarmar de novo e seguir achando que é capaz de traze-la para perto.

“Agora vamos, um de cada vez...”

Ele acha tudo isso muito novo. Não costuma se interessar por alguém a ponto de querer trazer por sua vida, mas ela o instiga de tal maneira que não consegue evitar. Talvez não o faça de propósito, é verdade – parece apenas ser o jeito dela, reservada e cautelosa –, só que ele se sente estranhamente atraído. Acaba sendo conduzido sem perceber.

“Um, dois, três, quatro...”

Ela quase nunca vem até ele. Seus passos são secos, sempre para longe. Não parece se importar o suficiente para deixá-lo se aproximar, mas também não o evita. Talvez ele não sinta que é preciso não agir, que na ausência ela pode descobrir que ele é perfeito para ela, por isso reclama e age o tempo todo. Acaba que nada parece sair do lugar.

“Cinco, seis, sete, oito...”

Eles seguem instáveis. Ambos são fechados, mas um quer ceder. O tempo passa e tudo parece permanecer igual. Ele espera cada dia, ela sente as horas pesarem. Para ele, ainda não se conhecem como deveriam se conhecer. Para ela, não deveriam se conhecer como poderiam. Talvez por isso nada pareça mudar, ainda que mude a todo instante. (Eles não sabem, mas é para ser assim.)

“Pronto, chegamos. Abre os olhos...”

Ele não dá mais passos. Ela não sai mais do lugar. Os olhos nunca se cruzam – ele prefere desviar sempre que ela mira os seus. O jazz que toca em seus ouvidos não é o peso que passa pelos dela. Mesmo assim estão lado a lado. Não se tocam, não se tentam, mas não se afastam. A noite cai igual porque continuam assim. E eles não conseguem perceber o óbvio.

“Vem, é aqui. Não falei que era seguro comigo?”

Só que estão sempre ali.

Domingo, Outubro 12, 2003

Sem Estações

Venta forte cada vez que penso em você. Jamais imaginei que o clima pudesse representar tão bem o que a saudade faz comigo, mas a chuva me ensinou que é simples assim, quando molha meu rosto e lembra as lágrimas que derramei por você. Aprendi que se tudo fica cinza, é porque você não está por perto, e que se está claro, é para meus olhos se fecharem e me forçarem a lembrar do que já se foi.

Mas aqui dentro é sempre escuro, então não sinto você. Talvez seja mais fácil assim. Porque o papel em que lhe escrevi está na minha mesa há mais tempo do que deveria - não o entreguei, mas também não o joguei fora. Observo-o todo dia jogado ali, às vezes o pego e leio as linhas tremidas e palavras manchadas, depois o largo de novo, enquanto volto para minha cama para viver uma vida que não é triste assim. Então acordo em um novo dia sozinho, e fico certo de que não tenho escolhas por as coisas serem tão diferentes nesse mundo daqui.

Estranho perceber que qualquer decisão sempre me é penosa, ainda que elas não representem tanto assim. Talvez não consiga lidar com os resultados, arcar com as conseqüências de uma manhã ser de sol e outra chuvosa. Quem sabe eu prefira o tempo frio para me colocar debaixo das cobertas e me defender dos trovões como criança assustada.

Ou apenas eu sinta que não há lugar seguro para ir sozinho.

Segunda-feira, Setembro 22, 2003

Recado

Hoje se completam dois anos de Rumo Ao Nada.

Quando comecei isso aqui, a idéia era apenas publicar alguns escritos dos quais eu me orgulhava. De lá para cá, virei um escritor compulsivo, refém do meu próprio monstro. De fato, nunca imaginei que pudesse durar tanto.

Obrigado a todos que fazem parte disso aqui, tanto como leitores quanto como fonte de inspiração. Vocês são a origem e o fim de tudo.

E que mais e mais anos se sigam em palavras!

Quinta-feira, Setembro 11, 2003

Um Pouco Mais

I

As quatro horas não chegavam, e chovia. Chovia como poucas vezes chovera por ali, gotas finas e quentes, lembrando as lágrimas que vez por outra brotavam dos olhos dela. Mas nada mudava, e as quatro horas não chegavam. Frio, muito frio. A solidão fazia-se sentir nela naquele instante.

Tomava seu café lentamente, a fumaça parecendo brincar em frente ao seu rosto, e um sorriso estático, falso talvez, insinuava-se para os olhares alheios. Seu ar era sóbrio, ainda que seu semblante carregasse uma dor que parecia não querer se esconder. Estava sentada em uma mesa de canto, sozinha, quase perdida em meio à pouca luz. Quase. Perder-se-ia caso não houvesse mais ninguém ali, caso os espaços fossem imensos, mas próxima a tanta gente sua beleza incomum impossibilitava uma ausência de percepção. Um clichê tornando-se real, a personagem colorida de um filme em preto e branco.

Uma garçonete aproximou-se de sua mesa. Mascava um chiclete e andava desajeitada, implorando por desejos masculinos. Recolheu a xícara e anotou algo em seu bloco, olhando para a moça com desdém. Ela sorriu em gesto automático, balbuciou algo e voltou seus olhos para a parede, com charme que não lhe era caro. Ali estava a diferença, ali estava o especial. 'Só ela poderia ser assim', as paredes pareciam dizer. A mim, só restava acreditar. Permaneci sentado no canto extremo, estudando seus gestos como um aluno devoto, dedicado. A distância era muito maior que as doze mesas, sugeria milhas ou léguas, um farol longínquo para um marinheiro perdido em um oceano de incógnitas. E não havia como chegar.

II

O tempo que passa não é mais o meu tempo. Só ouço a chuva, mas não sinto seu gosto, seu cheiro. Ela não me diz mais nada, porque tudo acontece igual, e eu não sei mais ser assim. As quatro horas logo vão chegar, e nada vai ser diferente. Frio, muito frio. Se existe solidão, ela está aqui.

Preciso de café para me manter viva. Não ligo para as lágrimas, não me importo de sorrir por conveniência, não sinto. De onde vem minha calma? A fumaça passeia a minha frente e isso é tão importante quanto o quadro naquela parede. Arte, fé, brinquedo - quem sou eu no meio de tantos nãos? Nada além de mim, outra como eles. Eles. Os donos dos olhares, os sedentos de porquês. Vocês não entendem? Sou essa, branca, vaga, nula. Perdida, talvez. Cansada das cores, descrente de tudo. Menos do café que me aquece a alma. Sorri.

E ela vem de novo, papel e caneta na mão. Desperdício, puro desperdício. Há mais nas palavras do que essa suja consegue perceber. Mas sorrio para ela, ela me traz a vida. 'Um café, por favor'. E sei que você me olha com desdém, mas não ligo. Você é fraca, como eles. Carente de desejos, como eles. Só eu tenho as paredes, e só elas falam para mim. Doze mesas e ele está ali. O que olha, se não consegue ver? Há um mar entre nós, você está disposto a nadar? Consegue ver a luz que mostro a você? É longe, é forte, é perigoso. Vivo aqui para mim, e não acredito que você possa viver também. Há um barco, talvez, mas é preciso achar. Meus olhos não são de ninguém, só as paredes os têm. Está escuro. Um dia poderemos nos encontrar. Até.

Sábado, Agosto 30, 2003

Recomeço

Tudo estava em desordem. Ainda havia chuva caindo do lado de fora, roupas jogadas pelo chão e pontas de cigarro pelos cinzeiros. Talvez um quadro que se pudesse pintar daquela situação servisse como síntese da sua vida, porém ninguém se interessaria em imortalizar o banal. Já se conhecia o suficiente para saber que era assim.

“Eu só encanto os que já perderam as esperanças.”

Existia calma no lugar, ainda que dentro dele tudo estivesse virado pelo avesso. Nada mais doía. Só importava estar de volta.

Quinta-feira, Agosto 07, 2003

FIM

Porque toda estrada tem um final e essa daqui encontrou o seu.

Terça-feira, Julho 08, 2003

Mentiras Certeiras

Não criei a mim mesmo para seguir um caminho que é só meu. Não sei quais foram as razões que me levaram a esses dias que eu gostaria apenas de deixar para trás. Não vim para ouvir de você o que sempre escuto quando tento voltar. Não.

É algo mais aqui.

O maior problema da dor é quando ela se torna tão banal que a gente nem se importa mais se sente ou não.

E fica fingindo ser feliz para nada, porque na verdade não merece ser além do que se pode ver.

Por isso é tudo escuro assim.

Segunda-feira, Junho 30, 2003

De Tão Pouco Tempo

O silêncio meu e seu naquele fim de tarde não dizia nada, como todo silêncio nosso dos últimos meses. E eu que sempre achei que o dia em que não conseguíssemos falar nada seria porque tudo estava dito, agora via que estava totalmente enganada. Você olhava para a parede cinza como se dela fossem saltar as perguntas que você deveria fazer para mim, e eu olhava para você como se da sua boca ainda pudesse sair algo mais do que um suspiro triste. Já estávamos distantes um do outro, por mais que não quiséssemos aceitar. Eu corria e parava sem saber a direção que estava por vir.

Não sentia mais vontade de lhe dar um abraço ou mesmo de olhar em seus olhos com o mesmo brilho de quando nos conhecemos. Eu era mais inocente ali, perdida em suas vontades, e você enxergava de mim muito além do que eu sabia. Só que eu sempre tive medo, você sabe, menina que era e não sabia lidar com minhas emoções, e ia e voltava de nós dois como se pudesse continuar brincando com as minhas incertezas, até a hora em que me vi obrigada a decidir. O problema foi que eu nem sabia que decisão era essa, e você também não sabia o que dizer para me confortar.

Mas as palavras ainda existiam dentro de mim e de você, apesar do silêncio. Elas estavam distantes, perdidas em emoções passadas, jogadas na solidão que cada um de nós construiu para si, esperando ser encontradas. E se foram assim. Tentar chegar até você já não era o refúgio que o meu coração pedia, e talvez deixar você partir não fosse tão ruim assim. Ou talvez o melhor seria eu sair. Sempre é difícil decidir o que não se sabe ao certo.

De repente nem mais estávamos ali.

Domingo, Junho 22, 2003

Outros Campos

E ela me olhou com os olhos de quem não sabe o caminho certo e disse: “vem, vamos ficar juntos, com você do meu lado nada é ruim, eu preciso de paz agora”, aí pegou em minhas mãos com força, como se isso me fizesse acreditar ainda mais nas suas palavras.

Eu estava quieto. Mais do que nunca queria trazer alguém para perto de mim, começar um mundo novo com ela, que nem eu quis quando conversamos pela primeira vez algumas semanas antes. Mas minhas mãos não mexiam, eu continuava em silêncio e só conseguia pensar em como tudo tinha mudado tão de repente.

Era apenas um sonho, só um sonho. Não conseguia tirar os olhos das mãos dela. Os dedos entrelaçavam-se rapidamente, depois batiam as pontas na mesa, depois se esticavam preguiçosos e então descansavam de novo por alguns segundos, não mais do que alguns segundos, e aí tudo se repetia incontáveis vezes. E eu ria desajeitado, tentando disfarçar o fascínio que aquela timidez me despertava, mas que ao mesmo tempo me dava uma sensação de imobilidade, de que nada daquilo seria de grande serventia no futuro. Era apenas um momento, só um momento, e quando acabasse eu talvez nem fosse lembrar que me sentira bem em estar ali.

O início de uma tarde fria. Os livros, o jazz, o capuccino sobre a mesa redonda. “Você não precisa ficar distante, eu estou aqui, vem, vamos ser felizes, você sabe me deixar assim”, mas eu não consigo, não chego perto, não me mexo. Eu não sou capaz de trazer para perto de mim. E as cortinas se fecham, eu quero abrir, mas elas se fecham, aos poucos, inteiras, cinzas. Que nem ela, quando disse que havia trancado as portas e que só existia o medo de não ter amor para dar em troca. É que a estrada se tornou escura e já não dá para saber se o sonhar é tão real quanto parece ser. Resta sentir.

Domingo, Junho 08, 2003

Quase Um Só

Quebrar tudo que tem pela frente sempre me pareceu a solução ideal para compensar minhas frustrações. Quando eu era pequeno e não sentia tanta dor, ainda assim gostava de jogar coisas na parede e gritar bem alto para tirar daqui de dentro o que incomodava. Naquela época eu já não entendia direito o que se passava, mas achava que era porque não tinha ainda idade para entender, e não porque não era capaz de controlar minhas angústias. Só que a gente cresce e percebe estranhamente que certos hábitos nunca mudam, e aí passa a chorar de desespero e a não conseguir aceitar que as atitudes podem fugir da vontade. E pensa que a vida de repente pode mudar, que aquela solidão não é uma solidão só, mas várias, e que deixar as coisas inteiras não significa nada se você também não está inteiro. E aí os objetos viram os inimigos, a parede se torna o mundo e você se torna nada. Tudo cai, tudo quebra, tudo vira ao contrário. Não há mais dor por um instante, depois a dor volta e te joga a realidade na cara, e aí a gente acha que o que é real nunca foi real ou então que vive numa mentira própria, que é tudo inventado pela gente ou por um outro alguém. Dá vontade de sair correndo, de voltar a gritar bem alto para expulsar tudo, e o grito sai mudo, e as pernas não respondem, e tá tudo escuro de novo. Sozinho. E as paredes que eram o mundo agora são o buraco negro e você é pequeno, pequeno, pequeno. Não consegue alcançar as coisas e elas não podem ser quebradas. Aí começa a se quebrar, porque não pode ficar inteiro, não há inteiro, só partes, e cada parte é um pouco de um todo que não existe, mas que quebrado pode existir. E surge de novo a angústia, a dor que não pára nunca, a vontade de ficar imóvel e simplesmente deixar o tempo passar. Só que ele não passa, e a gente se mexe à toa, só para ver se alguma coisa ainda está no lugar. E volta a ser grande, a se atrapalhar com as coisas e querer que elas não existam. Pede para a dor parar, para o gritar ter som e as cores do mundo preto e branco saírem do lugar que não é delas. E cai da cama para acordar da solidão e sentir que é tudo sozinho mesmo sem querer. Não há fuga para a confusão. As coisas estão no mesmo lugar.

Terça-feira, Junho 03, 2003

Epílogo de Duas Vidas em Papel

A última voz que imaginava ouvir naquela noite de fim de semana era a sua. Talvez por isso não tenha atendido de primeira quando vi no telefone o número de um lugar que não era o seu. E até agora não entendi o que aconteceu ao certo, como você voltou a fazer parte da confusão que existe aqui dentro. Mas a verdade é que voltou, e eu preciso fazer algo.

Não sou imune a você. Nunca fui, desde o primeiro instante, e pareço ser menos ainda depois de tudo que aconteceu. Pedir para ignorar o que sua voz me disse naquela noite de fim de semana é inútil, você sabe que não sou assim. Eu me preocupo, sempre me preocupei, e não foram meses, distância e silêncio que afastaram isso de mim, não mesmo. Só estava guardado, e agora voltou tudo. Estou aqui.

Você não vai ler isso, ninguém vai. Não dessa vez. Acho que aprendi com você que as palavras dizem mais do que os olhos sem dor podem perceber. Você entenderia, eu sei, mas talvez seja tarde. Quem sabe não é. Você escolheu assim.

Espero que fique bem.

Domingo, Maio 25, 2003

Os Sãos
Para uma amiga

Por onde anda você? Talvez estejamos distantes demais agora para ver que nada está no mesmo lugar. Você consegue perceber isso? Nosso castelo ruiu, não há mais um só em dois de nós. Acho que eu gostava do escuro que era nosso, o cinza preenchendo as certezas que você sempre quis ter.

Por que você continua? Não precisa ficar se não for para estar ao meu lado. Você não sente que já acabou? Fizemos o que estava ao nosso alcance, mas algo se perdeu nesse caminho de luz que surgiu a nossa frente. Acho que você gostava do silêncio das nossas confissões, o olhar cheio de respostas a perguntas que eu nunca quis fazer.

Às vezes as coisas simplesmente terminam em vazio.

Eu achei que os dias de sol esquentassem a gente, mas a verdade é que eles podem ser tão gélidos quanto tentar achar algum sentido para estarmos aqui.

Quarta-feira, Maio 14, 2003

Casa nova para o Rumo Ao Nada, com direito a comentários e o quadro que é a síntese do conceito disso aqui.

Sábado, Maio 10, 2003

Rumo Ao Nada

Eu não sei escrever textos alegres. Meu alimento é a melancolia, minha inspiração é a tristeza que consome o mundo. Talvez isso represente a forma como eu vivo. Ou talvez seja a forma como eu vejo o que é externo a mim. De fato, não sei. Não acho que tenho uma resposta para isso, e nem acho que preciso ter. Apenas deixo as coisas saírem daqui.

- Mas você não sabe o que escreve? Não é o que você sente?

- Seus textos são tão intensos, eu sinto eles em mim...

- Adoro quando você fala de olhares!

- Sabe aquele texto da menina e do malabarista? É o meu favorito!

- Doeu ler seu último texto. Fico preocupada com você.

- Tá tudo bem? Me escreve.

- Quando é que você vai atualizar o site, hein?

- Que lindo esse seu último texto!

- Não agüento mais suas lamentações.

- Sei lá, eu não curto muito os diálogos...

- Ok. Depois eu leio.

Eu só sei escrever por causa de vocês.

Terça-feira, Maio 06, 2003

Silly Love Songs

- Aí, não tô gostando da minha vida assim não.

- Quê? Você só pode estar brincando! Que que foi agora, cara?

- Não sei. Tá tudo calmo demais. Não gosto disso.

- Como assim, porra? Você vivia reclamando das suas confusões e agora não tá satisfeito porque tá tudo calmo? Você é louco!

- É...

- Não acredito nisso, na boa.

- É sério, cara. Minha vida tá muito calma, preferia como era antes.

- Puta merda, hein? Nada te agrada, que saco.

- É... acho que sou assim mesmo. Mas agora é diferente, sabe...

- Diferente por quê?

- Porque pelo menos eu sei do que não tô gostando.

- Ah, mas isso você sempre sabe.

- Não, não sei. Eu sempre acho que sei, mas nunca sei de verdade. Tanto é que nenhuma mudança me agrada. Acho que é esse lance de ser pós-moderno...

- Ahn?!

- É, pô... de criticar por criticar, saca? De estar insatisfeito com o que tá rolando mas não ter idéias pra melhorar.

- Você é maluco.

- Também. Mas faz sentido, vê só... eu nunca tô satisfeito com nada, não é isso?

- É, pô.

- Então pronto. Na verdade, eu não gosto de nada. Ou gosto de tudo e não consigo escolher o que me satisfaz, sacou?

- Não. Você é maluco.

- Você já disse isso.

- ...

- Mas não é culpa minha.

- Claro que é!

- Não, não é não. Dessa vez não.

- Então tá.

- É tudo culpa das canções de amor.

- Quê?

- As canções de amor, pô. Se não fosse por elas, eu não estaria assim.

- Eu, hein.

- É. Eu descobri que preciso de paixões na minha vida. Me alimento disso.

- Mas você sempre sofre quando tá apaixonado...

- Talvez seja essa a lógica da coisa.

- Ahn?

- Eu me sinto mais vivo assim.

- Putz...

- É que eu adoro tolas canções de amor.

Domingo, Abril 20, 2003

Pintura Abstrata

- Sou sentimental como nunca. Inadequado como sempre.

Deu um aperto no peito quando estiquei o braço logo que acordei e você não estava do lado da cama que sempre foi seu. Essa cena já tinha acontecido várias vezes (faz tempo que você não está ali), mas, por algum motivo, só hoje senti o vazio que se instaurara desde então. É um problema grave; às vezes meu cérebro não aceita o perder, me deixando suspenso, longe da realidade, como se o conceito de perda pudesse ser relativizado. Talvez seja essa a explicação de fato - ou apenas a verdade que eu criei para mim, a que eu prefira acreditar para não ter que lutar pela volta e admitir um novo fracasso (não é sempre assim?).

Confesso que estranhei minha frieza ter ido embora nesse momento. O espaço maior na cama me agradava, representação concreta dos anseios de liberdade que sempre tive. Não há constância em minhas vontades, eu sei, só que o caminho percorrido agora é muito longo para fugir do paradoxo. Levanto e olho pela janela, a mesma que já foi um quadro com o tempo parado e hoje vaza a parede. A neve cai forte no mundo que não é meu. Seus óculos ainda estão na mesa de cabeceira, marcados na lente direita pelos seus dedos sonolentos, e me pergunto se o calor que sentíamos dentro dessas quatro paredes um dia realmente existiu.

O cinza delas me diz que não.

Quarta-feira, Abril 09, 2003

Genérico

Tentei correr, mas minhas pernas não obedeceram – sequer saí do lugar, para ser mais exato. Ainda que em minha mente eu quisesse evitar a cena que estava para acontecer, dentro de mim algo dizia que eu devia continuar e encarar de frente, e acho que foi por isso que não me movi.

Acabou que tudo aconteceu e eu nem me dei conta. Talvez eu devesse ser mais cauteloso nessas horas, tentar manter a racionalidade a qualquer custo. Mas eu não me obedeço. Daí vem a insegurança que me toma parte por parte, e com ela a crise de consciência e a vontade de sumir do mapa.

Eu atravesso a rua com esforço e encontro outro ponto claro vindo em minha direção.

Começa tudo de novo. E vai. E volta. Cedo ou tarde.

Odeio quando eu me divido dentro de mim mesmo.

Quinta-feira, Março 20, 2003

Not In This Life


- Eu só queria saber o que fazer quando você me olha assim.

- Por que você simplesmente não age?

- Porque eu tenho certeza que, quando eu tiver você, vou perder de vez.

- E mesmo assim não terá valido o risco?

(confesso que não sei.)

Quarta-feira, Fevereiro 26, 2003

Em Cortes e Sombras

Eu não imaginava que a perda ia ser tão grande quando você virou as costas e saiu daqui. Na hora dei pouca importância, sequer ouvi o que você disse ao bater a porta. Simplesmente sorri com o canto da boca e pensei que era só mais uma vez que isso acontecia. E deixei você ir, confiante de que minha frieza seria capaz de me ajudar a superar sua ausência ou que mais cedo ou mais tarde voltaríamos ao normal. Acho que descobri tarde demais que nada daquilo era normal, que o que estava escapando de mim era mais do que eu mesmo tinha constatado até então.

“Por que você só enxerga aquilo que quer? Por que insiste em tentar entender?”

Há dias não saio de dentro do meu quarto. Isso normalmente me incomodaria muito, mas não agora. Sinto que tudo ficou parado. A música que toca no meu rádio tem apenas um acorde e as palavras da carta que você escreveu naquele dia distante são todas iguais. Os lugares perderam os seus sentidos se eles não podem mais ser atribuídos a nós dois. Não há mais o que ver lá fora. Da minha janela, olho para o céu nublado e penso que a chuva traz saudade. É estranho, eu costumava gostar desses dias, antes dessa imagem ficar associada a você.

“Mas você precisa aprender a viver sem mim. Eu sei que as coisas não ficaram legais, mas não temos mais o que fazer. Vai ser melhor assim”

Foi num dia como esse que tomamos café juntos pela primeira vez, naquela livraria. Eu ainda tinha dores pelo corpo e você, olhos desafiadores. Algo de diferente surgia ali, algo que não soubemos dimensionar então – e até hoje ainda não sei. Só lembro que seu cheiro se fundiu à cena e nunca mais pude esquecer. Hoje mesmo, enquanto minha caneta percorria tensa as linhas do papel, senti ele preencher o ambiente de novo. Talvez uma lágrima tenha escorrido pelo meu rosto nesse momento, mas preferi ignorar e continuar a escrever. É assim que a dor sai de dentro do peito, você sabe.

“A verdade é que eu só queria te ver feliz.”

Sábado, Fevereiro 15, 2003

Sem Título

Caiu mais uma folha da árvore lá fora. Acho que chegamos ao outono e nem percebi. É estranho, mas as estações do ano não são diferentes para mim agora. Na verdade, há algum tempo eu já não me importo mais se faz frio ou calor, se a chuva lá fora alaga as ruas por onde poderia andar ou se o sol queima a pele mais do que deveria. São coisas que parecem tão pequenas que prefiro não ligar para elas. Acho que fui mal acostumado, as sutilezas da vida não me comovem mais.

Queria poder olhar para a parede e dizer que o branco dela não me passa nada, mas estaria mentindo de novo, que nem aconteceu certa vez que você estava aqui. Agora falta algo nela, só não sei bem o quê. Já tentei preenchê-la com fotos e desenhos e ela continua olhando severa para mim, pedindo de volta o que eu não sei que se perdeu. Nem mesmo o urso polar de quem fiz só o contorno deixou o espaço mais familiar. Não sei de quem é a culpa pelo vazio, mas nesse quarto parece caber muito mais do que trago comigo ultimamente.

Em meus poucos metros, ando sem firmeza, receoso. Os passos que tenho dado nunca foram tão incertos e o gelo fino que cobre o meu caminho parece que vai se romper a qualquer momento. Fico parado, tentando evitar a queda. É frio lá embaixo, eu sei, e já chega de frieza por aqui. Deixo o vento ir embora, os pensamentos também. Queria tudo quieto como antes – foi assim que aprendemos a nos gostar, lembra? – só que o barulho das vontades agora é mais forte por aqui. Eu não consigo dormir assim.

Já sei que o livro largado na mesa de cabeceira está assim há mais tempo do que deveria, mas não tenho vontade de continuar a ler. Talvez hoje eu prefira ser mais burro, saber menos do que todo mundo (eu acreditava que sabia demais). Ou talvez não o leia simplesmente porque ele me lembra que eu o comprei junto ao seu presente de Natal do ano passado. Confesso que já nem sei ao certo. Às vezes parece que as palavras de suas páginas são tão silenciosas quanto as que tentam sair de minha boca, e em nossa mudez somos cúmplices e inimigos.

A verdade é que tudo que ficou está juntando poeira da mesma forma como junto solidão em mim.

Quarta-feira, Janeiro 29, 2003

Muito Além de Nós Dois

Eu queria entender o que seus olhos dizem quando encontram os meus assim, tão aflitos. É estranho, talvez diferente, mas a verdade é que sempre fico desconfortável, procurando abrigo no chão ou no céu, mas acho que há menos formigas e estrelas para contar do que o tempo que dura a sinceridade do seu olhar. Não sei se isso é bom ou ruim. Às vezes parece que eles buscam uma verdade que eu não tenho ou me dizem uma que eu não quero ouvir, e nessas horas meu corpo não responde como deveria. Dá vontade de correr para algum lugar seguro, onde eu possa ficar quieto. Trancado em uma bolha, talvez. Só que eu não consigo, tudo o que faço é ficar parado, esquivando-me de você. Mas seus olhos continuam pairando sobre mim, pesando como a consciência de quem esqueceu de amar a si mesmo por não saber amar aos outros.

Sua mão estendida já não me diz muita coisa, enquanto seu olhar me revela mais do que eu posso agüentar. É meu espelho, meu retrato em tons de cinza. Parado em sua órbita, sou eu encolhido em um canto, caricatura de menino amedrontado. Sou eu indefeso, deixando que o mundo me tome por completo, sem que sobre um pouco de mim em mim mesmo. Desconstruo-me nas suas certezas e fico solto em seu espaço. Não fujo mais do que seus olhos tentam dizer. As formigas estão imensas agora e as estrelas se apagaram. No escuro, ficamos eu e você de cara para a parede, em confronto injusto - eu intimidado e você muda. Não há paz aqui, só dor e tensão. Ainda lembro da dúvida que o seu olhar trazia quando me encontrou pela primeira vez. Você era mais você ali. E eu me sentia leve assim.

No silêncio da nossa confusão, ouço os gritos que vêm de dentro de mim e de você. Talvez pudéssemos entendê-los antes, quando o universo parecia ser um só para nós dois e o rancor não havia nos tomado, mas hoje isso me parece tão impossível quanto não ser doloroso olhar em seu íntimo de novo. Seu abraço não traz conforto, e prefiro procurar por você em algum lugar perdido da memória. A inquietude em nosso encontro revela o quanto já fomos diferentes, ainda que nos olhemos no espelho e vejamos sempre a mesma insatisfação daquele tempo. Eu sei que os céus se tornaram mais nublados desde então, e nada podemos fazer agora. A verdade que eu buscava está perdida em algum espaço em branco do seu olhar e a minha não mais lhe parece assim. “É apenas a vida”, você irá me dizer.

Mas eu prefiro acreditar que não.

Sábado, Janeiro 18, 2003

Dia de Festa

“Acho graça ver que os discos continuam os mesmos, mesmo a música entrando no meu ouvido diferente. Tudo porque os discos cantam só pra gente.”

Disse isso e se sentou na poltrona velha da sala pouco iluminada. O frio que anunciava a chegada da noite entrando pela janela fez com que ela se arrepiasse por um breve instante, mas assim que se acomodou o calor das taças de vinho tinto entornadas durante todo o dia tomou seu corpo novamente.

“Gosto dessa vitrola”, ele disse. “Na verdade, acho que gosto do que ela me traz de volta, sabe? Sei lá, era um tempo bom aquele, não era?” Seus olhos procuraram conforto nos da irmã. Ela acenou com a cabeça positivamente. “Era bom quando a gente pegava a coleção dos Beatles da mamãe e ouvia o dia todo, sonhando com o dia que seríamos famosos. Lembra disso, Lu? Por que tiraram isso da gente?”

“A gente cresce, Rafa. Não tem jeito. Também sinto falta, foi um tempo bom, mas passou. Não volta mais. Era bom sonhar, mas hoje a gente tem que ver as coisas reais mesmo.”

Esticou a mão e fez um afago na cabeça do irmão. Apesar dos 26 anos, ele às vezes era mais criança que ela, parecendo despreparado para encarar o mundo com olhos de adulto. Isso, de certa forma, doía bastante nela, que aos 18 já se cobrava como responsável pelo rumo da sua vida.

“Não devia ser assim.”, ele falou bem baixinho.

O coração dela apertou. Sabia que tudo aquilo era difícil demais para o irmão, e pela primeira vez desde que tudo acontecera teve vontade de chorar com ele. Mas não podia, precisava ser forte. Sua mãe lhe ensinara desde cedo a ser assim, e por mais que todos a considerassem fria e distante, era um comportamento que lhe dava agora a segurança necessária para encarar mudanças tão bruscas.

“Rafa, olha pra mim. Não fica assim, vai. Você precisa se acostumar. Sério, você precisa crescer. O mundo de fantasias acabou, você não percebe isso? Meu Deus...”

Ele a encarou de forma séria. Levantou-se do chão onde sentara ao lado da poltrona e caminhou até a vitrola. Abriu a tampa com raiva, puxou um dos discos cuidadosamente arrumados na prateleira acima e colocou para tocar. A música alta preencheu o ambiente rapidamente. Lucia levou as mãos aos ouvidos e fez uma careta de desaprovação. Rafael sorriu e esticou a mão direita em sua direção.

Dançaram pela sala como faziam quando eram crianças ainda inocentes na casa dos pais. Sentiram-se mais leves e mais distantes de tudo naqueles minutos que puderam sonhar de novo. No dia seguinte, tudo voltaria ao normal. A música soaria diferente mais uma vez, o vinho não faria mais efeito. Mas, naquela noite, ao menos naquela sala, o que soava aos ouvidos tinha gosto de nostalgia. Apenas os dois, os mesmos discos velhos dos Beatles tocando e a velha vitrola. Simples como sempre deveria ser.

*com a colaboração especial da amiga Natalia Warth, autora do parágrafo inicial.*

Terça-feira, Dezembro 10, 2002

Diálogo (In)Consciente

- Você já pensou em sumir?

- Sumir? Como assim?

- Sumir, cara. Desaparecer mesmo. Dar um tempo de tudo. Da vida, das pessoas...

- Ah, tá. Não, acho que não. Quer dizer... sei lá, tem horas que bate um desespero, que parece que nada dá certo, mas acho que nunca quis sumir não.

- Sei...

- Por quê?

- Eu devo ser muito estranho, então. Penso nisso direto.

- Tá falando sério?

- Tô, cara. Volta e meia tenho vontade de sumir.

- Mas por quê?

- Pô, não sei dizer... acho que é porque nada dá certo pra mim.

- Ah, fala sério! Também não é assim.

- É sim.

- Claro que não. Deixa de ser pessimista.

- Como se desse...

- Ih, pode parar. Não vem com esse papo de novo não.

- Tá bom.

- Você precisa mudar, cara.

- Eu sei.

- Precisa se acostumar a ser feliz.

- Eu sei.

- E o que você tá fazendo pra conseguir isso?

- Sei lá.

- Porra, não é possível. Você tem que fazer algo, cara!

- Todo mundo diz isso.

- Então pronto. Por que não faz nada?

- Não sei o que fazer.

- Como não?

- Não sei, pô! Tudo que eu tento dá errado. Acho que eu só faço escolhas erradas, nunca vi.

- Isso é coisa da sua cabeça, na boa. Tem que acreditar mais, cara. Senão vai mesmo dar tudo errado sempre.

- É foda.

- Não, não é. Você precisa mudar.

- Eu sei.

- Sabe?

- Não. Na verdade eu não sei nada.

- Pois é. Aí é que tá o problema. Sabe do que você precisa?

- Do quê?

- Aprender a viver.

- E como eu faço isso?

- Pra começar, pára de querer fugir. Você tem que viver a realidade, porra.

- Mas isso dói.

- Claro que dói! Se relacionar com os outros é complicado. Mas você não pode viver sozinho!

- Por que não?

- Porque não dá, ora. Você vai viver se escondendo por aí?

- Acho que sim.

- Então, amigo, vai nessa. Só não diz depois que eu não avisei.

- Beleza.

- Ah, só mais uma coisa...

- Diz.

- Desse jeito você vai ficar sozinho pra sempre.

- Eu sei.

- E isso não te incomoda?

- Talvez. Mas não tanto ao ponto de eu me preocupar agora.

- E por que não?

- Porque amanhã isso tudo pode mudar.

- Como assim?

- Ah, esquece. Eu sou muito instável.

- Tô vendo.

- É por isso que mantenho todo mundo longe de mim.

- Tarde demais, eu já tô aqui. O que você vai fazer agora?

Sábado, Novembro 09, 2002

Uma Incerta Canção

Certo dia alguém lhe disse que sua vida era um mundo de fantasias. Na hora em que ouviu isso, só conseguiu sorrir e fazer de conta que não se importava, mas, em seu interior, sentiu-se invadida e desnorteada. Como alguém ousava entrar assim em suas defesas? Que direito tinha uma pessoa qualquer de afirmar o que se passava ali dentro dela? Não era justo. Doía aquela constatação, doía a incerteza que ela trazia em si, doía a realidade. Precisava ser tão difícil? Não via mal em ser assim; era seu refúgio, seu abrigo.

Estava em um imenso campo verde. Poucas árvores compunham a paisagem e o sol brilhava alaranjado de fim de tarde. Deitada, sentia uma leve brisa passear por entre seus lisos fios de cabelo e os olhos teimavam em fechar como se tivessem medo. Não sentia a paz que todos os romances lidos em sua adolescência de sonhos davam como certa em um lugar assim. Ao contrário, havia algo de incômodo ali, ainda que não pudesse precisar o quê.

O branco manchado da parede do quarto a deixava sem asas, só que os pés também não tocavam o chão (ela já sabia). Prendia-se naquele instante, enquanto a mente vagava solta por algum lugar em que nunca esteve, mas que era familiar a ela. Estava em sua cama, vendo tv. Estava à beira de um penhasco, pronta para pular. Estava no colo de sua mãe, criança carente e indefesa. Estava só. Não estava mais ali.

Batidas incessantes à porta chamavam a realidade de volta. Seu corpo não respondia. Em silêncio, falava com o olhar perdido de quem vivia muito além daquele espaço. Se chamavam fantasia aquilo, para ela o nome era vida. Nunca se questionara o porquê de ser assim, nem mesmo sabia o que seria ser diferente. Entendia-se bem às voltas com as criações de sua imaginação, apesar de todo o medo que as aparições costumavam causar. Era dor e aprendizado em sensação única, vontade de se encontrar no escuro da alma.

Cerrou os punhos por um breve instante, em gesto de apreensão. Não sabia em que se segurar – só havia uma fortaleza em seu mundo, a sua própria – por isso precisava sentir-se presente de novo. Tinha que coibir as fugas de sua alma, tornar-se parte da realidade que insistia em escapar. E era naquele gesto que se fazia entender na solidão do seu quarto e do seu íntimo, seca e quieta, sem que sua consciência estivesse ali.

O espelho não refletia sua imagem. Era noite fria e um rádio ao longe tocava uma velha canção que lembrava Bob Dylan. O silêncio não estava mais no ambiente, mas ainda assim dentro dela tudo ficou quieto. As imprecisões e os cortes de seus pensamentos também desapareceram.

No chão, um pequeno papel se movia, leve como o vento que vinha da janela. Nem mesmo a pequena poça d’água era capaz de para-lo por completo. O despertador tocou em hora que não era comum e nem assim ela se levantou. Só um suspiro lento se ouviu ali.

“Moça! Ei, moça! Acorda! O dia ainda não acabou!”

A vida, sim.

Domingo, Outubro 20, 2002

Ponto Zero

Acredite, comecei a organizar minha vida sem você. E eu sei que você acha que sou incapaz, que não vai se passar nem uma semana e eu vou voltar correndo, só que dessa vez você está enganada. Já estou me acostumando com a idéia e até curtindo não ter mais suas manias por aqui.

Lembra quando você resolveu ir embora de vez? Achei mesmo que o meu mundo ia desabar. Pois é, nessas horas eu sempre maximizo as emoções, chega a ser ridículo. Choro, me desespero, imploro por mais uma chance. Aí, quando passa, parece até que nunca senti nada. E logo estou rindo à toa, embalado pela memória do momento.

Nos primeiros dias foi difícil, reconheço. Ainda olhava para qualquer canto da casa e sentia sua presença aqui. Chegava até a desejar que você não tivesse ido embora, olha só! Se eu soubesse que eu sem você seria paz, juro que não teria insistido tanto para ficar. Na verdade, está tão agradável agora que nem parece que você esteve presente há tão pouco tempo.

O que acontece é que eu sempre tive muito medo de mudanças, e o que me apavorava na sua partida era ter que começar a viver mais uma vez e de forma diferente. Tinha perdido a paciência já, e, mal ou bem, o que existia era o conforto que os anos de convivência nos trouxeram. Mas isso não podia ser o suficiente para nos manter juntos, e sua decisão de me largar abriu meus olhos para isso.

Falando assim, parece que não foi bom enquanto você esteve comigo. Não, não é isso. A última coisa que quero é soar recalcado, e também não quero fazer discurso entusiástico da minha solidão. No fundo, ainda estou espantado com a tranqüilidade que é encarar a vida com a sua ausência.

Aprendi com você que certas decisões, por mais que sejam difíceis em um primeiro momento, precisam ser mantidas até que se esteja acostumado a elas. Isso me motiva ainda mais a deixar tudo como está. Sei que algo se perdeu de mim nesse processo, mas encaro como natural.

Agora meus vinis podem ficar arrumados do jeito que eu quero, sem qualquer ordem lógica. As roupas podem ficar jogadas sobre a cama por dias e não preciso deixar a mesa do café posta todas as manhãs. Meu apartamento voltou a ser o meu caos, onde só eu me entendo (só, eu me entendo).

De fato, eu já sei como vai ser minha vida sem você. Vou viver acordando tarde e comendo qualquer besteira. Os dias vão ser todos iguais, simples como eu sempre quis, sem preocupações ou aborrecimentos. Tudo vai ser mais fácil.

O problema é que eu nunca soube lidar com o que vem fácil, e talvez por isso o complicado me atraia tanto. Não teria como ser diferente agora.

Acredite, comecei a organizar minha vida sem você. Só não me acostumei ainda com a sua ausência. Será que você ainda demora muito para voltar?

Domingo, Outubro 13, 2002

Silêncio (texto-clichê)

Ele olhou para o relógio na parede mais uma vez. Nos últimos vinte minutos, esse gesto havia se repetido mais de dez vezes. O pé direito batendo inquietante no chão, em compassos quaternários, era a reprodução mais instantânea de sua ansiedade. A poltrona começava a se tornar desconfortável, mais até do que o corpo que coibia o vôo de sua alma, e o silêncio atrapalhado pela maquinaria que girava os ponteiros não era o aliado de antes.

Levantou-se e pegou mais um pouco de vinho tinto. A noite já ia alta e quente, incomum para aquela época do ano, mas mesmo assim se sentia à vontade para aquele gesto invernal. Ao se sentar novamente, viu o porta-retratos que ficava na mesa de centro. Vazio. Não conseguia lembrar desde quando estava assim, muito menos qual havia sido a última foto a ocupar aquele lugar que deveria ser de destaque, só que isso não o incomodava. Muito além de uma representação estática, precisava agora de algo tangível. Voltou sua cabeça para a parede do relógio e os minutos ainda demoravam a passar.

O telefone ao seu lado, mudo, berrava por atenção. O toque incessante de outras épocas parecia esquecido, e mesmo a poeira que tomava conta do aparelho não era capaz de dar a dimensão da ausência. Pela primeira vez, ele o olhou com vontade de usá-lo. Abriu a pequena caderneta de números anotados em formas tremidas e letras corridas e procurou alguém para quem valia a pena ligar. Os nomes que se seguiam pouco diziam, até que a letra J se fez notar em cores, quebrando sua visão monocromática.

Uma palavra configurada como quebra de sentidos. Não se imaginava mais capaz de ser tomado por algo assim, muito por conta do tempo que já se ia perdido na memória, mas estava de novo imerso naquilo que tanto desconhecia. Em momentos assim, sentia-se estranho a si mesmo, uma incógnita que o mundo adorava ignorar, e procurava respostas a perguntas ainda não feitas. Era o clichê personificado, uma convergência de direções rumo ao nada.

Sua covardia o impediu de ligar. O mundo quase autista em que se encerrava a sua vida mantinha-se como norteador, como o ponto de segurança. Modificar a lógica da inércia não lhe era mais atraente, ainda que soubesse ser erro e omissão não buscar algo tão importante que se perdera por obra do tempo e da imaturidade. Olhou mais uma vez para a máquina que se movia lentamente na parede e decidiu, em caso raro, agir sem o respaldo de uma máscara.

No dia seguinte, haveria de falar pessoalmente com ela e colocar um fim na angústia que se apossara há quase uma década de seu interior. Precisava reorganizar o seu próprio caos, por isso não se calaria mais.

Do frio que se projetava dele naquela noite quente, tomou forma um único sentimento, aquele em que nunca acreditava ver tomando a si.

Mas já era tarde demais para a luta ser vencida, e o vento seco que passava lento pela janela levou consigo as vontades adormecidas. Os ponteiros do relógio se calaram e o pé não mais bateu compassado no chão.

Despediu-se da vida como sempre a encarara, sem entender o que fazia ali.

Quinta-feira, Setembro 12, 2002

P&B

Ela caminhava com leveza, como se os seus pés mal tocassem o chão. Do rosto vinha uma alegria incontida, uma espécie de prazer que parecia ser único. Era impossível passar por ela e ser indiferente. Aquela mesma cena, vista todo dia por quem, às sete horas da manhã, passava pela Avenida Ataulfo de Paiva no trecho entre as ruas Carlos Góes e Cupertino Durão era capaz de dar mais cor às lindas manhãs do Leblon.

Seu nome ninguém sabia; a chamavam "moça do cabelo vermelho", mas só em conversas de bar ou caminhadas na praia, quando ela estava distante e se tornava traços nas memórias apenas. Despertava fascínio e medo, tanto que não se ouvia falar de uma só pessoa que já tivesse falado com ela. A intangibilidade criada pelos que a viam andando por lá havia se tornado tão forte quanto o mito em torno de sua própria existência.

A noite se anunciava lentamente. Os postes acendendo um a um, orquestra de vaga-lumes errantes, clamavam pelo calor humano em suas ruas. A boemia ainda não estava ali, apenas alguns passantes enfadonhos, apressados em suas vidas rotineiras. Não era a hora dela, mas ela apareceu mesmo assim. Branca, leve, serena, como naquelas manhãs. Seu rosto, no entanto, não era o de sempre. Em seu olhar, angústia tão grande parecia corpo estranho. Pela primeira vez, ela parou.

Um adolescente mal vestido aproximou-se. Decerto tinha doze anos, não mais, e era sua coragem pueril traço mais velho que o bairro-cenário. Talvez não tivesse visto a moça antes, talvez sequer soubesse de quem se tratava. Quem sabia, porém? Não a temia. Realidade e fantasia caminhavam juntas sem que se fizessem entender como um algo só naquela história. E a pequena mão que se pronunciou em gesto de afago, compreensiva e trêmula, logo a tocou. Não mais do que dez segundos. Os olhos que voltaram ao jovem penetraram a sua alma masculina com ternura, e a boca exprimiu gratidão em palavra singela: "obrigado".

Ela atravessou a pista e foi em direção à praia. No mar, perdeu-se juntos às ondas nervosas, de olhos de ressaca, tão misteriosa quanto o fora ao longo daquelas manhãs leblônicas de poucos privilegiados, descoloridas a partir de então. Era noite de outono e a boemia chegava às ruas. A vida ainda estava ali.

Sábado, Agosto 03, 2002

Sentido do Novo

Esses dias têm sido estranhos. Tenho dormido mais tarde e acordado sem sono. Não tenho vontade de sair de casa, muito menos de ver pessoas. Você provavelmente dirá que isso é o meu normal, que nada há de estranho nisso. E eu deveria concordar, mas não posso. Porque sei que estou me sentindo diferente, porque sei que esse igual não é o mesmo igual daquele tempo que você me conheceu.

Ao mesmo tempo, nada mudou. O frio que tem feito e essa chuva que insiste em cair ainda me trazem conforto. A cama desarrumada ainda é lembrança de suas reclamações. E toda vez que eu bebo vinho ou ouço "All Blues", aquela do Miles Davis, eu acabo lhe vendo em mim. Minha raiva do espelho continua, minha mania de contar estrelas no céu à noite também. Olhando assim, o tempo parece não ter passado. Se não fosse pela sua ausência, eu até poderia achar que isso é verdade.

Os livros ainda estão jogados no chão. Não passei das cinco primeiras páginas em todos que tentei ler. Não sei, talvez essa busca em escritos por algo que me dê sentido esteja me atormentando demais. Quero respostas imediatas, fim de angústias e incertezas. Eu sempre fui assim, não é? Por mais que você tenha tentado me ensinar que precisamos refletir mais sobre nós mesmos, acho que eu nunca tive coragem de tentar. Talvez eu tenha muito medo de mim.

Apesar disso tudo, há algo de novo aqui. Porque minha vida está diferente, eu sei. E ainda que seja estranho, não é ruim. Você não deve ter reparado, até por estar tão distante agora.

E é melhor que continue assim.

Terça-feira, Julho 23, 2002

Filme Caseiro

Ela chegou com os olhos bem vermelhos. Se não a conhecesse muito bem, diria que tinha fumado maconha. Só que ela não era de fazer essas coisas. Além do mais, a expressão que seu rosto trazia denunciava que aquela estranha coloração vinha de horas e mais horas de choro desesperado. O que acontecera eu ainda não sabia, mas com certeza não era simples.

Reparei que trazia em suas mãos um papel amassado. Fiz menção para que me entregasse, porém ela o apertou ainda mais. Seus olhos encheram d’água. Aquele gesto me pareceu bastante familiar e, ao mesmo tempo, um tanto incomum para alguém como ela. Sua força sempre fora o motivo de seu maior orgulho e nunca a vira tão descontrolada. A boca estava seca e não dava a impressão de que fosse capaz de emitir qualquer som.

Passei minha mão por seus cabelos e a puxei de encontro ao meu ombro. No que a abracei, ela pareceu desfalecer. Seu corpo pesava indefeso e quente, ansioso por amparo. Eu não conseguia dizer nada, até por não saber o que se passava com ela. Apenas ficava ali presente, esperando que esse meu estar a fizesse bem.

Ela, porém, não se acalmava. Ao contrário, chorava copiosamente e me apertava com a pouca força que lhe restava. Afastei-a por um breve momento e fitei seus olhos outrora azuis. Eram tristes e angustiantes agora, tomados por aquele vermelho que tanto me assustara minutos atrás. E eu simplesmente não sabia o que fazer.

Do som de sua voz baixa tentei identificar alguma palavra, sem sucesso. Aproximei meus ouvidos de seus lábios, porém ela se calou de novo. Disse a ela que podia confiar em mim e que queria saber o que estava acontecendo, ao que fui repreendido com um “você não entenderia”.

Peguei de suas mãos o papel amassado sem que houvesse qualquer resistência. Dentro dele, em letras tremidas, pude ler aquelas palavras que por anos ansiava ouvir de sua boca. Algo me dizia, porém, que não tinham sido escritas para mim. Ela me olhou com firmeza e pude ter a certeza do meu engano. Dessa vez eram meus olhos quem marejavam, infelizes por tanto amor desperdiçado.

Virou as costas e se colocou a sair de minha casa. Antes de ir, olhou-me em um último momento com ar de despedida. Esse gesto doeu mais do que qualquer perda que eu já tivera em meus vinte e poucos anos de vida. Mandou-me um beijo lento e fechou a porta.

O céu era cinza e um vento frio entrava pela janela entreaberta. Meu som tocava Chet Baker e a garrafa de vinho tinto estava vazia em cima do sofá. Tudo seria triste aqui.

"Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém, só penso em você
E aí então estamos bem..."

Renato Russo, "Por Enquanto"

Terça-feira, Julho 02, 2002

Pela Manhã

Acordou assustado. Suava e ofegava como nunca lhe acontecera. Pelo ar, era capaz de sentir aquele perfume que tanto lhe fizera bem em todos os dias de convivência. Ela estivera em seu sonho, sem dúvidas, e isso a colocara tão próxima quanto desejava que estivesse agora.

Sentia um aperto no peito. Desconhecia aquela sensação, mas algo lhe dizia que seu nome era saudade. Ela partira não havia muito tempo, porém a sua ausência já começava a se mostrar como dor. Algumas lágrimas escorreram do seu rosto. Lamentou ainda mais que ela não estivesse por perto para ter seu abraço agora.

Seu primeiro impulso foi pensar em ligar. Discou os primeiros números e desistiu. Teve vontade de jogar o aparelho forte contra a parede. Não o fez, contudo. Abaixou a cabeça e o choro passou a ser compulsivo. Tremia todo o seu corpo. Parecia que sua vida tornara-se vazia sem ela, que as coisas tinham perdido o sentido.

Olhou para o relógio e viu que não passava das oito horas da manhã. Dormira pouco e faltava muito para o dia acabar. E a única coisa que precisava agora era que os dias passassem rapidamente, trazendo-a de volta o mais breve possível. Se é que ela de fato irá voltar. Esperar.

Pela primeira vez, sentiu que suas manhãs seriam difíceis demais.

Sexta-feira, Junho 28, 2002

Cortante

O relógio marcava nove e meia da manhã. O dia acabava de começar, mas ele sentia como se não tivesse mais forças para nada. Levantou-se da cama e abriu a porta que dava até o banheiro. Olhou-se no espelho e viu o quão profundas eram suas olheiras. Jogou água no rosto e passou as mãos com vigor no cabelo, tentando faze-lo ficar de uma forma pelo menos agradável, mas não teve muito sucesso.

Voltou para o quarto e abriu as janelas. Não gostava muito da luz do sol, porém naquele dia parecia-lhe ser uma boa deixá-la entrar no seu mundo. Precisava de algo que lhe injetasse um pouco de ânimo e afastasse aquela tão estranha sensação de infelicidade.

Voltou seus olhos para a poltrona que ficava próxima à cama e viu que havia mancha de sangue na camisa que usara na noite anterior. Tentou lembrar-se do que fizera, mas sua memória parecia ter ficado limitada aos momentos que passara em casa. Não lembrava de ter saído em algum momento. Estranhou aquilo, deu de ombros e foi preparar o café da manhã.

Ao tentar abrir a porta, notou sangue também na maçaneta. Tentou girá-la e não teve sucesso. Estava trancado em seu próprio quarto. Correu até a janela e olhou para fora. Décimo quinto andar. Não tinha sequer como saltar por ali. Para piorar, não havia um aparelho de telefone dentro do quarto, só na sala.

Começou a procurar mais resquícios de sangue pelo ambiente e encontrou uma pequena poça próxima à escrivaninha que usava para desenhar. Ao lado, uma garrafa de vinho quebrada. Mas ele não bebia. Ficou apavorado.

Andava de um lado para o outro freneticamente, como se assim pudesse enxergar alguma solução. Pensou em berrar pela janela, mas daquele andar, no meio de Copacabana, era improvável que alguém o ouvisse. Foi nesse momento que se deu conta de que não tinha qualquer ferimento em seu corpo, o que implicava aquele sangue ser de outra pessoa.

Forçou mais uma vez sua memória, mas não conseguia de fato se lembrar do que ocorrera na noite anterior. Seu desespero aumentava a cada segundo. Em um gesto instintivo, abaixou-se e olhou para baixo da cama.

Só conseguiu ouvir o som de uma porta se abrindo e a lâmina entrando firme em suas costas.

Domingo, Junho 16, 2002

Questionamentos

- Por que você demorou tanto pra voltar?

- Porque era necessário...

- Como assim?

- Ah, eu tinha que repensar algumas coisas.

- E adiantou?

- Com certeza.

- E eu posso saber o que você tinha que repensar?

- Não.

- Por que não?

- Porque são coisas muito íntimas, umas confusões que você não ia entender.

- Não posso nem tentar?

- Esquece isso, vai... o que importa é que eu tô aqui agora.

- Será que tá mesmo?

- O que você acha?

- Não sei...

- Dá pra deixar de ser tão inseguro?

- Só se você disser que me ama.

- E eu preciso mesmo dizer?

- Humm...

- Seu bobo.

Quarta-feira, Junho 05, 2002

Por Agora

Segurou as mãos dela com força. Mesmo aquele gesto já repetido tantas outras vezes lhe parecia ser diferente agora. Sensações novas tomavam todo o seu corpo, sem que deixasse esconder toda a felicidade sentida por ele naquele momento.

Ela olhou em seus olhos com ternura. Deu um sorriso único, aquele que ele sempre dissera ser o mais bonito de toda a sua vida, e o abraçou demoradamente. Sentia-se feliz como há muito não conseguia. Apesar de tudo que havia acontecido, parecia que seu lugar era mesmo ali.

Beijaram-se. Não um beijo ansioso, mas singelo. Puro e lento. Diferente de todos os anteriores. Nem melhor, nem pior. Apenas diferente. Com gosto de vitória, talvez. Mas não de certeza, porque há um clichê de mais pura verdade: na vida não se tem certeza de nada.

E é da dúvida que surge a esperança de que algo possa ser a cada dia ainda melhor.

E é por agora que se vê tudo isso.

Quinta-feira, Maio 30, 2002

Em Um Quarto Escuro

Decidiu que não ia mais se levantar da cama. Ali o mundo parecia mais seguro – era onde se sentia imune a qualquer coisa, capaz de ser feliz de fato –, por isso não havia motivos para sair daquele lugar tão aconchegante. A escuridão do seu quarto trazia a sensação de que, além dele, nada mais existia, e dispersava os pensamentos capazes de lhe fazer sofrer. Na verdade, odiava lembranças. Se tivesse a opção de remover do seu íntimo algo, seria a ridícula capacidade de guardar momentos na memória e traze-los à tona quando menos conveniente.

Mantinha os olhos abertos. Não tinha idéia da hora, mas podia precisar que já era tarde da noite. Madrugada, talvez. Era sempre assim. Não conseguia deitar e simplesmente esquecer de tudo, por mais que quisesse. Seus pensamentos eram tomados por todos os seus fracassos, pela noção de que era incapaz de acertar pelo menos uma vez. Recontava as experiências, via que os erros se repetiam com inacreditável freqüência e só conseguia chorar. Tornara-se um fraco, é verdade. Fragilizado por constantes decepções, atirado ao isolamento por não agüentar mais colecionar insucessos. Se um dia existira esperança em seu peito, ela com certeza se perdera.

Parecia que o mundo se tornara complexo demais para ele. Estava com medo de viver em companhia de outras pessoas, como se todos fossem ameaças à sua felicidade. Não conseguia perceber, no entanto, que não havia mais uma felicidade a ser estragada. Sua conduta lhe fazia amargo e o afastava daqueles que ainda tinham algum tipo de carinho por ele. A solidão daquele momento em seu quarto nada mais era do que uma metáfora do que estava por se tornar a sua vida.

Fechou os olhos por um breve instante e teve vontade de não estar mais ali. Ao abrir, porém, percebeu que nada mudara. Os castelos de areia em que calcou sua vida estavam destruídos há tempos, e era tarde demais para mudar o mundo de ilusões e fantasias que criara para si.

Abraçado ao seu travesseiro, chorou mais uma vez. Descobriu que precisava muito mais do que a escuridão de um quarto e uma cama aconchegante para fingir ser feliz, mas um pouco tarde para que as coisas pudessem ser diferentes. Só conseguia pensar no que havia deixado para trás.

Precisava ter aprendido a viver no universo real.

Sexta-feira, Maio 24, 2002

ALLC

Ontem eu quis controlar o tempo. Ser capaz de voltar, fazer segundos durarem horas, semanas se tornarem anos. Se eu pudesse ter esse controle, tentaria deixar cada momento nosso eterno, para que eles não se tornassem, de uma hora pra outra, apenas lembranças (dolorosas por serem só isso). Não agiria da mesma forma, é verdade, e daria um valor ainda maior a cada instante ao seu lado.

Se eu soubesse que você iria embora tão rápido assim, não deixaria sequer o tempo passar, acredite. Só que eu não tenho esse poder. E é por isso que hoje eu acordei chorando. E é por isso que amanhã vai ser assim também. E é por isso que eu não sei quando vai parar. Porque se realmente eu fosse capaz de fazer algo parar, com certeza eu optaria por parar você quando foi embora, quando me levou toda a esperança que nem eu acreditava existir. Porque se o tempo existe para mim agora, é para lamentar que ele possa andar.

Eu só queria que isso fosse diferente. Eu só queria que nossa história não terminasse assim. Eu só queria você aqui. Agora. Sempre. Sem ter tempo. Para que eu não chorasse mais e voltasse a ser feliz.

Quarta-feira, Maio 22, 2002

Tudo Igual

Aconteceu de novo

Não consegui evitar

O resultado? O de sempre

Me ferrei mais uma vez

É assim mesmo

Se fosse diferente, não seria a minha vida

Segunda-feira, Maio 20, 2002

Sem Complicar

Ele a pegou pela mão e a puxou para perto de si. Os olhos dela estavam umedecidos por lágrimas que insistiam em não escorrer pela face. Seu corpo tremia levemente, como se pedisse amparo. Tinha a impressão que ela podia desmontar a qualquer instante tamanha era sua fragilidade, e a única coisa que lhe parecia ser possível fazer era abraça-la. Assim permaneceu por um longo momento, até que tivesse coragem de dizer ao menos uma palavra.

- Eu...

- Não fala nada.

- Você precisa...

- Pra quê? Eu já sei...

- Tem certeza?

- Claro. Você também sabe, não é?

- Talvez. Tenho tanto medo...

- Medo? Medo de quê?

- De te perder, ora.

- Deixa de ser bobo, vai...

Era ele quem chorava agora. Um choro alto, angustiado, que parecia não querer parar. Abraçou-a de novo com força, em um gesto de desespero para não deixa-la partir.

- Eu não quero te perder...

- E nem vai, pára com isso!

- Mas você parece tão...

- Apaixonada.

- Como é?

- É isso mesmo.

- Você tem certeza?

- Isso importa tanto?

- Claro...

- Não deveria.

- Como não?

- Você precisa aprender uma coisa...

- O quê?

- A não querer ter tantas certezas.

- Não dá.

- Claro que dá.

- E pra que eu pensaria assim?

- Pra ver que é muito mais simples viver.

- Até parece...

- Olha, acredita numa coisa: eu te adoro.

- Mesmo?

- Eu nem vou lhe responder. Não ouviu o que eu falei?

- Desculpa. Posso lhe dar um beijo?

- Ainda precisa pedir?

- É só pra ter certeza...

- Puta merda, desisto!

Quinta-feira, Maio 09, 2002

Antes Que Seja Tarde

Certa vez eu falei para você que as coisas não voltariam a ser como eram antes. Você, como sempre, riu e disse que eu sempre falava isso e nunca colocava em prática. Talvez fosse verdade até então, mas estava decidido a mudar. Você não acreditou, é óbvio.

Ontem você passou por mim e trocamos apenas breves olhares. O tempo nos tornou mais amargos e distantes. Era inevitável que isso acontecesse, mas você nunca acreditou. Brigava comigo e falava para eu deixar de ser idiota. Essa é uma das poucas lembranças doces que trago de nossos momentos passados.

Não tive muito tempo para reparar em você, mas pude notar que o brilho que você carregava em seus olhos desapareceu. Infelizmente não estive por perto para acompanhar essa mudança e, quem sabe, poder ajudá-la a não perder esse que era seu maior atrativo. Confesso que doeu vê-la assim.

Mas eu tinha que mudar, as coisas não podiam continuar daquele jeito. Éramos só você e eu contra o mundo, vivendo isolados de tudo e de todos. Precisávamos crescer. Nosso medo de perder um ao outro me parece tão inútil hoje quanto as juras de amor eterno que fizemos ao longo de anos de convivência.

Sua forma de andar ainda era a mesma. Por alguns segundos, virei a cabeça para trás e fiquei torcendo para que você fizesse o mesmo e nossos olhares se cruzassem novamente. Imaginei-me correndo de encontro a você, abraçando-a e dizendo que agora estava pronto para nós dois. Só que você seguiu andando sem dar qualquer sinal de que pudesse mudar seu curso.

Eu devia ter ouvido você, mas meu orgulho não deixou. E você sabia disso também, por isso não se preocupou em insistir comigo. Respeitou minha decisão e foi embora sem demonstrar qualquer ressentimento.

Pois é. Hoje chorei por ter visto você assim, e nem precisava lhe falar isso. Você já sabe. Ninguém jamais soube de mim como você.

Domingo, Abril 28, 2002

Ciclo

Era a terceira vez que ela passava por ali. Parecia querer se fazer notar, pedir olhares atentos e pensamentos ansiosos. Caminhava com calma, como se o tempo tivesse parado e ela não quisesse ir a lugar algum.

Era a terceira vez que ele a via passar à sua frente. Seus olhos não conseguiam ser indiferentes e mais uma vez a seguiam afoitos. Sentia-se dividido entre falar algo ou apenas seguir contemplando-a, mesmo sabendo que qualquer uma dessas atitudes constituia-se como inútil.

Ela pára. Vira-se para trás. Seus olhares se cruzam por um breve instante. Ele respira fundo. Abre a boca como se fosse mencionar algo, mas desiste e abaixa a cabeça. Nela, o sorriso que se principiava logo desaparece, dando espaço à vaguidão. Vira-se novamente e segue seu caminho. Ele permanece sentado.

O dia ainda era claro quando ele se levantou e se colocou a andar sem rumo certo. Não sabia ao certo quanto tempo se passara - segundos, minutos, talvez horas. Ela não estava mais presente. Fora vencido mais uma vez por sua inconstância, ainda que tenha visto naquele olhar uma esperança perdida.

Um vazio tomou-lhe o peito. Estava sozinho, tal qual imaginara um dia estar por se fechar em um mundo de medo. Angustiado, olhou para a frente e decidiu continuar, já se acostumando às derrotas diárias em tentativas quase sempre inexistentes. Não haveria de ser diferente agora.

Era a última vez que ele parava por ali.

Terça-feira, Abril 23, 2002

Por Um Ser Incompleto

Outro dia seu sorriso passou por mim

Lindo, inocente, reconfortante

Um sorriso como nunca vira

Talvez ele fosse assim por tudo e com todos

Talvez sequer tivesse a intenção de sê-lo

Mas pareceu que ele o era só para mim

No mesmo dia vi você dormir ali

Quieta, inocente, apaixonante

Simples como eu nunca imaginara

Talvez seu sono fosse o mais belo sono

Talvez eu fosse feliz por vê-la assim tão perto

Mesmo sabendo que aquele momento iria passar

E eu não iria conseguir esquecer

Talvez o tempo tenha parado por algumas horas

Talvez meus olhos tenham marejado ao pensar no depois

Talvez meus dedos tenham tocado de leve seu rosto

Talvez eu ainda fosse eu

Mas depois de você, tenho minhas dúvidas

Quarta-feira, Abril 17, 2002

Do Que É Felicidade

- Por que você não sorri?

- Porque eu não gosto.

- Como assim não gosta?

- Não gosto, ué! Qual o problema?

- É estranho...

- Sei...

- Mas você tem um sorriso tão bonito...

- Que nada...

- Ah, pára com isso, vai... você não está feliz?

- Não.

- Nem por eu estar aqui?

- Deveria?

Sexta-feira, Abril 12, 2002

Bola de Papel

O papel continuava em branco, exceto por uma discreta mancha de tinta no canto inferior esquerdo. Uma mão, a que segurava a caneta-tinteiro, parecia frágil, como se não suportasse o peso daquele pequeno instrumento. A outra, mais decidida, sustentava a testa com força, como se ajudasse em um esforço máximo de concentração.

Retrato-vivo, ele estava parado naquela posição há minutos. Os olhos miravam o espaço em branco em tom de súplica, pedindo compreensão e auxílio daquele que um dia fora seu maior companheiro. Não obtia qualquer resposta. Suspirou profundamente e tentou rabiscar algo na folha. A imprecisão das palavras irritou-o a tal ponto que quase atirou a caneta de encontro à parede. Na mesa iluminada por uma pequena luminária de querosene, sua angústia parecia crescer.

Levantou-se e caminhou até a janela. Procurou estrelas no céu mas só as encontrou em seu pensamento. A noite era fria, como todas daquele mês. Olhou mais uma vez o papel em branco. Jamais imaginara uma metáfora tão perfeita para si mesmo. Vazio. Puxou a cadeira com sutileza e se posicionou mais uma vez diante daquilo que se tornara o seu maior desafio.

De súbito, a caneta agora percorria a superfície com desenvoltura. Parecia ter vida própria. Uma. Duas. Três linhas. Parou mais uma vez. Seus olhos acompanharam afoitos o que escrevera até ali. Fecharam-se lentamente. Abriram, porém, a tempo de presenciar as palavras uma a uma serem riscadas.

Havia agora uma grande mancha preta na folha. Com as duas mãos, levou-a à altura do queixo e a amassou com um prazer antes nunca sentido por ele. Voltou à janela e atirou a pequena esfera que se constituíra dos pedaços de sentimentos escritos.

Pela primeira vez entendera o quanto era difícil escrever o amor.

Sábado, Abril 06, 2002

O Simples Que Se Torna...

Era a terceira vez que o elevador parava em menos de 1 minuto. 5º andar. Quase duas horas da tarde e ainda faltavam 14 andares para que chegasse até o seu. Fazia um calor infernal ali dentro e as três pessoas que lhe serviam de companhia não eram nem um pouco interessantes, pelo menos à primeira vista. 6º andar. O elevador parou de novo. Ninguém entrou e ninguém saiu. A senhora que estava ao lado vira-se para ele e solta a típica pergunta daqueles que querem começar uma conversa mas não sabem como.

- Tá calor aqui dentro, não?

Ele se limitou a acenar com a cabeça positivamente, ao mesmo tempo que pensava em várias respostas aplicáveis àquela situação ridícula.

- Não, não tá calor não, sua velha estúpida! Na verdade isso que está escorrendo do meu rosto não é suor... é água! Estou tentando mudar de estado físico para ver se consigo escapar daqui. Ih, acabei de revelar minha identidade secreta... agora você já sabe quem é o Homem-água das histórias em quadrinhos.

- Calor? Não... tá até um vento fresco aqui. Eu acho que a senhora está é ficando excitada com a minha presença ao seu lado. Controle-se, minha tia, eu não curto coroas não...

- Você tá com calor? Ah, essas mulheres depois da menopausa...

O elevador parou de novo. 7º andar. Não era possível. Os 4 se entreolharam. Nenhum deles fez menção de sair. Do lado de fora, também não havia ninguém.

- Só podem estar de sacanagem comigo, soltou ele em voz alta.

A jovem moça que também estava ali dentro deu uma discreta risada. Ele a reconheceu de algum lugar, mas não sabia de onde. Talvez já tivessem se esbarrado alguma outra vez naquele mesmo elevador. Não era difícil. O horário de almoço das empresas do prédio costumava coincidir e eram apenas 2 elevadores para levar todos de volta ao trabalho depois da breve pausa. De qualquer forma, aquilo não era o que importava. O fato é que ela era muito gostosa. Vestia uma camisa social de seda que deixava transparecer um sutiã meia-taça, branco e rendado, segurando os seios fartos e uma saia azul na altura do joelho que remetia a um uniforme de colegial. Já estava se imaginando em uma transa tórrida com ela ali dentro quando foi despertado de seus pensamentos por um tranco mais forte do elevador.

- Que merda é essa agora?

A porta não se abriu. O indicador digital dos andares marcava o 9º. Só faltava aquela merda ter enguiçado agora.

- Aiiiii, meu Deus! Bem que a mamãe sempre falou que era perigoso andar de elevador! Por que eu nunca acreditei nela?

Os olhos dele fitaram a última pessoa que lhe fazia companhia naquela incômoda situação. Como se fosse pouca a desgraça de ficar preso num elevador às duas da tarde no Centro da cidade do Rio de Janeiro, havia um gay ali e ele resolveu ter um ataque histérico. Não, não era possível. Afrouxou a gravata e respirou fundo. Tinha que manter o controle agora.

- Não é possível! Eu joguei pedra na cruz! Dá pra gazela se controlar um pouco? A situação já não tá ruim o suficiente?

O silêncio que se criou em seguida o levou à consciência de que havia se exaltado além do que deveria com aquilo tudo. A jovem gostosa agora o olhava com ar de desprezo. A velha tinha as mãos cobrindo a boca, quase em sinal de prece. O rapaz homossexual mantinha o rosto dirigido ao chão, com uma expressão que variava entre a vergonha e a raiva.

Nada do que se dissesse agora poderia tirar o incômodo que se havia criado nos quatro companheiros de elevador. Aquele prédio com certeza nunca fora tão alto. Seguiram-se mais alguns segundos sem que nenhuma voz soasse no pequeno espaço de pouco mais de 3 metros quadrados.

O som do elevador voltando a se mover foi o que mudou aquele quadro quase inerte. Ele soltou um suspiro aliviado. Faltavam apenas 4 andares agora e tudo estaria resolvido. Provavelmente demoraria um bom tempo para rever qualquer um dos ali presentes, isso se um dia voltasse a ver.

O elevador ainda parou rapidamente no 11º andar, quando saltou a pobre senhora, que permanecia com as mãos em frente à boca e que sequer desejou um “boa tarde” ao sair dali. No 17º, desceu a moça, apressada. Provavelmente estava atrasada da volta do almoço e o chefe a faria pagar um boquete para compensar aquilo. Ah, como ela era gostosa. Aquela saia...

Seus pensamentos se foram quando no indicador luminoso apareceu o número 19. Olhou para o lado e reparou que o outro rapaz preparava-se para sair também. Não se conteve:

- Você vai descer aqui também?

- Vou. Algum problema?

Nem se deu ao trabalho de responder. “Eu vou lá perder meu tempo com um gay!”, falou em tom quase inaudível.

Cumprimentou a secretária e entrou na sala. Logo que se sentou à mesa, o telefone tocou. Na linha, o advogado que coordenava o escritório o convidava para que viesse conhecer o filho do dono e mais novo advogado dali.

Desligou o telefone suando frio. Era óbvio o que viria a seguir. Caminhou a passos lentos pelo corredor que levava até a sala de seu chefe. Sentia-se tal qual um prisioneiro condenado à pena de morte, rumo à cadeira elétrica.

Ainda tremendo, girou a maçaneta. Trancada. Ouviu pequenos sussurros vindos de dentro da sala e imaginou o que se passava lá dentro. Sorriu com o canto da boca e se virou para voltar ao trabalho quando escutou o barulho da porta se abrindo. Uma mão jogou ao chão um envelope pequeno e pardo, sem qualquer inscrição do lado de fora.

Não teve dúvidas de que a carta era para ele, por isso mesmo não hesitou em abrir.

********

“Favor passar no departamento pessoal para assinar sua demissão.”

Sábado, Março 30, 2002

Aviso ao leitor atrasado:
Por motivos diversos, resolvi deletar o último post. Ainda esse feriado colocarei algo novo aqui para compensar.
É só isso mesmo. Volte em breve.

Sábado, Março 23, 2002

Across The Universe

Era quase meia-noite e ainda não saíra de casa. A garrafa de vinho estava pela metade, os sapatos pela sala, ela no sofá. Apesar do quadro aparentemente caótico, sentia por dentro uma serenidade incomum. Já perdera as esperanças de fazer algo naquele sábado, mas mesmo assim não se sentia mal por isso. Talvez fosse a primeira vez que não desejava avidamente estar em outro lugar, estar em companhia de outras pessoas. Nunca lhe parecera tão bom estar ali sozinha.

Os últimos acontecimentos não a encorajavam muito, é verdade, porém não era hora de se lamentar. Jurara não se deixar abater na próxima vez que tivesse uma decepção e iria cumprir isso. Por pior que fosse a situação, tudo haveria de melhorar. Um dia chegara ao extremo de tentar cometer suicídio por overdose de remédios. Hoje ria de quão patética fora sua postura. "Nada vai mudar meu mundo", pensou.

Sentia-se especialmente forte aquele noite. Singularmente bela. Nada conseguiria mudar o seu mundo. Levantou-se do sofá e caminhou até a estante. Tirou com carinho um velho compacto dos Beatles e o colocou para tocar. O som que preenchia o ambiente a fazia ainda mais leve. Aquela talvez fosse a melhor herança deixada por seus pais. Se pudesse ficar ali todo dia ouvindo as mesmas músicas, seria até capaz de esquecer que eles a expulsaram de casa aos dezesseis anos quando descobriram que estava fumando maconha. Infelizmente o tempo lhe incutira responsabilidades.

O que lhe importava agora não era nada disso, porém. Mesmo com todas as dificuldades, conseguira se firmar na vida e estar ali agora. Tinha um bom emprego, um bom apartamento, um bom carro. Faltava-lhe um amor, é verdade, mas se acostumara a essa ausência com o passar dos anos. Seu rosto delicado denunciava os vinte e cinco anos que tinha, ainda que a postura tentasse dizer que esse tempo já se passara há muito. Aprendeu desde cedo que é preciso se impor para conquistar aquilo que mais se deseja; talvez por isso a inocência lhe parecesse tão remota.

O relógio já marcava quinze para uma. Encheu mais uma taça de vinho e levou à boca com calma. O prazer que tal degustação lhe dava era algo que poucos conseguiriam entender, disso ela não tinha dúvidas. Foi até a janela e reparou que poucas luzes nos prédios próximos ao que morava estavam acesas. Uns três ou quatro apartamentos apenas. Madrugada de sábado. Por que haveria de ser diferente? Todo mundo ansiava por sair em noites assim. Não ela.

Voltou seus olhos para a rua e reparou que o fluxo de carros era provavelmente mais intenso do que em muitos dias úteis. E era tão tarde! Várias dúvidas surgiram em sua cabeça nesse instante. Para onde iam todos? O que gostavam de fazer? Por que não conseguiam ficar em casa? Será que ela era a única que pensava diferente? Estava na hora de mudar seu comportamento?

Notou que o mundo não parou enquanto esteve imersa em suas próprias complicações por anos a fio.

Decidiu apagar a luz e ir dormir.

Terça-feira, Março 12, 2002

Pelo Menos Uma Vez

- Acho melhor a gente terminar.

- Como assim? Você tá doido? Logo agora?

- É. As coisas não podem continuar assim. Tá tudo muito estranho.

- Ah, não. Não vou aceitar isso.

- Tenta me entender...

- Que entender o quê! Você não pode fazer isso comigo!

- Não estou fazendo nada com você.

- Claro que está! Você acha justo me deixar logo agora?

- Não é questão de justiça. É questão de necessidade.

- Necessidade! Hahaha! Necessidade de quê?

- Você não iria entender...

- Me diz!

- É melhor não.

- Você tá me magoando assim.

- Desculpa, não era a intenção.

- Mas você disse que me amava...

- Pois é...

- E não me ama mais?

- Não é bem assim. Apenas descobri que o amor é muito relativo.

- Como é? Relativo?

- Isso.

- Olha, desisto de entender você. Faz um favor?

- É claro...

- Veste a sua roupa e dá o fora daqui!

- Tá bom... não precisa ficar irritada...

- Mas antes, será que você faz uma última coisa?

- O quê?

- Me come pelo menos mais uma vez?

- Tá... mas você acha que isso vai ser bom?

- Pelo menos uma vez tem que ser.

Quarta-feira, Março 06, 2002

Cegueira Noturna

Eu já estava caminhando há alguns minutos quando ela passou por mim. A madrugada era clara, de lua cheia, por isso mesmo não fazia idéia de quão tarde podia ser. Na Avenida Atlântica, singularmente bonita, movimento intenso de pessoas e carros em todas as direções. Como sempre.

Amava Copacabana desde que eu era bem moleque ainda, quando meu pai me levava para andar na praia e apreciar, segundo suas próprias palavras, "aquilo que a natureza fez de melhor": as mulheres. Eu devia ter uns nove ou dez anos, nem havia me interessado pelo assunto ainda, mas, para não desapontá-lo, concordava com um sorriso amarelo ou um aceno de cabeça cada vez que ele proferia um elogio às moças que passavam no calçadão. Quando ela passou por mim, senti-me de volta a esse tempo, à infância que já se apagava da minha memória.

Não, não sou tão velho. Na verdade, estar ali me deixava especialmente nostálgico, carente de ingenuidade. Tudo era muito estranho e se confundia em minha cabeça. Eu já era parte de Copacabana, assim como Copacabana já era parte de mim; minha essência, minha alma, minha dor. Sentia Copacabana correr em minhas veias, ouvia Copacabana me chamar na madrugada. Por isso mesmo a Avenida Atlântica era meu lar naquele momento. Só podia ser ali.

Ela olhou em meus olhos com um brilho que nunca havia visto igual; um sorriso discreto atenuou a alvidez de sua pele, antes merecedora de minha atenção devota. Os cabelos ruivos deslizavam sobre seus ombros de tão lisos que eram. Seu andar transmitia segurança e delicadeza, ternura e desafio. O adereço perfeito à beleza de tal lugar.

Quando ela passou ao meu lado, tentei dizer alguma coisa, mas não consegui. Estava atônito, tal qual a primeira vez que avistei a imensidão daquela avenida na companhia de meu pai. Ela se foi e não tive coragem de olhar para trás. Achei por bem não interromper seu caminho, modificar seu destino. Continuei em minha direção, caminhando rumo ao nada. Como sempre.

Ainda hoje, quando Copacabana grita por mim tarde da noite, saio à rua e lembro com clareza fotográfica dela vindo em minha direção, sorrindo e olhando de forma única.

E a odeio por um dia ter me deixado cego para a visão daquilo que me é mais importante.

Copacabana.

Sábado, Março 02, 2002

Em Tempos Modernos...

A chuva caía forte há algumas horas e o cheiro trazido por ela penetrava no quarto de Clara em forma de lembranças e saudades. O som, em volume quase inaudível, sussurrava alguma canção de Dave Brubeck, provavelmente “Take Five”, a sua favorita. A taça de vinho sobre a penteadeira, por outro lado, parecia gritar para que fosse bebida, abandonada que estava por longo tempo ali.

Deitada em sua cama, Clara permanecia quieta, quase imóvel. Apresentada uma serenidade a princípio surpreendente, porém a angústia que vinha crescendo a cada minuto refletia em seu íntimo o verdadeiro estado em que se encontrava. Fechou os olhos lentamente e assim permaneceu até ser despertada por batidas incessantes à porta de seu quarto.

Contra a sua vontade, levantou-se de forma vagarosa. Foi até a mesa de canto e acendeu um incenso. Logo o ambiente tomou-se de um cheiro agradável, levando embora as lembranças que ali ainda insistiam em permanecer. As batidas continuavam, insistentes. Deu alguns passos e girou com calma a maçaneta. Sua mãe adentrou o quarto apressada.

Os olhos de Clara se fixaram por alguns instantes em algum ponto do horizonte que a janela deixava à mostra. Voltou-se para sua mãe e perguntou se já havia acontecido. Diante da resposta positiva, pediu que ela se retirasse dali. Fechou a porta com a mesma calma com que havia aberto alguns segundos antes.

Algumas lágrimas discretas rolaram por sua face ao avistar-se no espelho. A vaguidão que seu olhar trazia parecia lhe incomodar como nunca antes o fizera. Sentiu raiva de si mesmo por ser tão fechada, por não saber se expressar como e quando deveria.

Pegou a taça de vinho e bebeu todo seu conteúdo de forma afoita. Em seguida, girou o botão de volume do rádio com agressividade, elevando a música a um nível insuportável. O choro agora era forte e compulsivo.

Enfiou a cabeça no travesseiro, tentando abafar sua tristeza, mas não servia de consolo. Devia ter sido mais sensata e ter dito tudo o que deveria quando teve oportunidade. Mas por medo, insegurança ou sabe-se lá o que mais, preferiu se omitir. Agora era tarde.

A sensação de que uma grande injustiça fora cometida a tomava por inteiro naquele momento.

Às vinte horas e doze minutos de um dia de março as ligações foram encerradas e o público escolhera o eliminado do novo "reallity show" da televisão sem que ela conseguisse dar o seu voto.

Prometeu a si mesma nunca mais ligar a televisão.

Quinta-feira, Fevereiro 21, 2002

Acontece Por Aí

- Olha nos meus olhos quando falar comigo!

- Eu não consigo...

- Olha! Quero ver se você está sendo sincero!

- Pára com isso. Você sabe que eu tô falando a verdade...

- Sei... se tivesse, olhava pra mim! Não ficava aí mirando o nada...

- Você tá entendendo errado... não é isso...

- Como assim? Por que você não me olha então?

- Porque senão não vou agüentar e vou te beijar...

- E quem disse que não é isso o que eu quero?

Domingo, Fevereiro 10, 2002

Lúgubre Relicário

Queria ter o mundo em suas mãos. Gostava de ser o centro das atenções, de estar rodeada de pessoas que a admirassem. Sempre fôra muito popular em todos os lugares que freqüentava, e alimentara seu ego por anos a fio. Não era de se admirar que logo começasse a pensar que todos estavam aos seus pés e a fazer o que bem entendesse daqueles com quem convivia.

Entretanto, parecia não conseguir entender o que havia feito de errado para estar agora naquele estado. Já bebia há algumas horas, e as várias garrafas de vinho vazias jogadas pela casa denunciavam o seu alto grau de embriaguez. Chorava compulsivamente, enquanto via da janela de seu apartamento as luzes acesas de uma cidade que um dia acreditou ser sua.

Agora estava ali, largada na sala semi-escura, com a tv passando algum filme em preto e branco e as roupas espalhadas pelo sofá. Tinha telefonado para várias pessoas, e todos respondiam a mesma coisa quando indagadas se estavam dispostas a fazer algo: "sinto muito, já tenho compromisso para hoje". Não haveria nada de anormal nisso se não fosse pelo fato de tal frase vir sendo repetida incessantemente ao longo de várias semanas em seus ouvidos.

Caminhou até o armário e pegou mais uma garrafa de vinho. Com raiva, arrancou a rolha e atirou-a pela janela, observando com singular prazer a queda. Não despejou uma gota em sua taça; preferiu entornar a bebida diretamente na boca, deixando que o excesso escorresse por seu rosto e seu corpo. O conteúdo inteiro desapareceu do recipiente em poucos minutos.

Toda a casa parecia tremer agora. Cambaleante, andou até o sofá e sentou-se, levando as mãos à cabeça. Mais lágrimas rolaram de seus olhos. Tentou deitar-se para adormecer um pouco, porém não conseguia deixar de pensar em como seu mundo estava ruindo agora. Quebrou a garrafa que estava ao seu lado com um gesto bruto e certeiro, acertando o espelho que insistia em refletir aquela cena.

Aos poucos, foi se recompondo. Ponderou que não podia permanecer daquela maneira e passou a se acalmar. Talvez estivesse exagerando. Talvez fosse apenas uma fase ruim. Talvez. Abriu um pequeno sorriso, imaginando o qüão engraçado seria quando descobrisse que tudo era fruto de sua imaginação, que as pessoas continuavam a admirá-la tanto quanto antes, quem sabe até mais, e que realmente só não vinham tendo tempo para encontrá-la.

O toque da campanhia a despertou de tão profícuos pensamentos. Olhou para o relógio e percebeu que passava da meia-noite. Não esperava nenhuma visita, por isso ficou bastante intrigada. Foi até a porta e tentou, pelo olho mágico, ver quem era. O corredor escuro, entretanto, não tornou isso possível. Relutou em abrir, mas o toque incessante e compassado acabou a convencendo. Girou a maçaneta e, lentamente, puxou a porta em sua direção.

Tal gesto não durou pouco mais do que alguns segundos, porém foi suficiente para elevar assustadoramente seus batimentos cardíacos. Os braços, trêmulos, pareciam querer recuar, talvez pressentindo que algo de ruim estava para acontecer. O cérebro, no entanto, permitiu que seguisse adiante, ignorando os apelos do seu lado emocional. Sentia uma forte tensão ali, mas preferiu continuar.

O ambiente à meia-luz deu o tom certo para o que aconteceu a seguir. Já com a porta aberta, um vulto jogou-a para dentro do apartamento.O alto grau de embriaguez favoreceu a queda, fazendo com que ela derrubasse tudo que havia no caminho até o chão. Tentou berrar algo, mas uma mão ágil tampou sua boca antes que assim o fizesse. Com os braços, procurava acertar aquele corpo que estava agora sobre o seu, só que esbarrava em sua própria debilidade.

Desesperou-se. Mexia-se de todas as formas, buscando livrar-se daquela situação. Foi então surpreendida por um forte cheiro, algo que lhe parecia bem familiar. Quando o pano úmido aproximou-se de seu nariz, pôde ter a certeza do que era. Éter. Nesse momento, tomou consciência do que estava por acontecer e viu que não haveria muito mais a ser feito.

Eram cerca de 11 horas da manhã quando despertou. Estava no chão da sala, no mesmo local da madrugada anterior. Olhou para os lados e reparou que estava sozinha. Sua roupa estava intocada, assim como todo o apartamento. Avistou as garrafas de vinho vazias e a mancha na parede, e viu que a porta estava fechada, trancada por dentro.

O vidro de uma das janelas da sala quebrado foi o que comprovou que não havia sido apenas um sonho aquilo tudo.

O que fôra, porém, parecia ter se perdido na memória, em um mistério que lhe perseguiu até sua morte. Desse dia em diante, sempre que se olhava no espelho perguntava a si mesma o porquê de não ter perdido sua vida naquela madrugada, evitando o sofrimento de conviver diariamente com a solidão que se tornara uma constante desde que fôra jogada ao abandono por todos aqueles que um dia ela pensou estarem aos seus pés.

Quarta-feira, Fevereiro 06, 2002

Não, caros leitores, eu não morri e nem acabei com o "Rumo Ao Nada".

Peço desculpas pela ausência prolongada, mas é que estive viajando por alguns dias e não tinha como acessar com freqüência onde estava.

De qualquer forma, já estou de volta e pretendo retomar a rotina de textos ainda hoje.

Volte em breve aqui e confira!

Um grande abraço,

Marcelo Caldas

Domingo, Janeiro 06, 2002

Conversas Noturnas

- Sabe, eu queria entender os seres humanos...

- Como assim?

- Ah, você sabe... saber o que se passa na cabeça deles e tal.

- Mas você também não é um ser humano?

- Sou, mas não estou falando de mim. Queria entender os outros.

- E tem diferença?

- Muita, muita diferença... você nunca reparou?

- Juro que não...

- Mas tem, pode acreditar. Quer ver?

- Diz aí...

- Essa ridículo obsessão pelo sexo oposto, por exemplo. Eu não tenho isso.

- Ah, fala sério... todo mundo tem!

- Não, eu não tenho. Não passo a minha vida toda procurando a mulher ideal.

- E os outros passam?

- Claro! Já viu alguém te falar que não quer uma namorada ou um namorado?

- É verdade...

O garçom traz mais uma cerveja. Os dois se calam por alguns segundos, enchem os copos e voltam a conversar.

- Mas você não acha estranho ser assim?

- Assim como?

- Sei lá... não querer ter alguém do seu lado. Você fica numa boa mesmo?

- Fico, tô te dizendo.

- Tá bom. Esse é um ponto. Mas em que mais você se acha diferente dos outros?

- Hummm... também nâo gosto de ser o centro das atenções. Sabe esse pessoal que quer de qualquer jeito aparecer? Subir na vida, ser melhor que todo mundo... isso não é para mim não. Tô bem aqui no meu canto, com meu emprego normal, com meu conhecimento normal e minha vida normal.

O casal da mesa ao lado olha espantado. O bar agora está vazio, umas cinco ou seis mesas estão ocupadas apenas.

- Isso é comodismo...

- Não, não é. Você não tá me entendendo. Não é que eu vá ficar sem progredir, sem mudar. Só não quero ser o mais foda, o melhor. Isso é um pensamento medíocre...

- Você acha mesmo?

- Acho! Ambição serve pra quê? Só pra criar inimizades...

- Olha, sua filosofia de vida é muito esquisita.

- A minha? Hahahahaha! Claro que não. A dos outros é que é.

- "A" dos outros? E por acaso é uma só para todo mundo?

- Sim, é! O pensamento humano é muito limitado...

- Não viaja... qual é essa filosofia, então?

- Ah, esquece. Deixa disso e vamos sair daqui.

- Sair? E ir pra onde?

- Pegar umas putas e fazer uma farra. Comer alguém.

- Por que isso agora?

- Porque quero me sentir mais humano.

Quarta-feira, Dezembro 26, 2001

Réquiem Para Uma Bela

Nos dias de chuva parece que sinto você aqui do meu lado. Sei que não devia ser assim, mas não consigo evitar. Parece besteira, já que, na verdade, nunca tive você de fato. Mas essa sensação me invade quando o tempo está assim. Talvez por você ter ido embora num dia como esse. Talvez por eu me sentir mais sozinho em dias como esse. Não sei ao certo.

O fato é que é tudo muito estranho. O céu cinzento me lembra você. As gotas batendo na janela me lembram você. Minha cama parece ter você. Só que aqui não tem ninguém, nem mesmo eu. Fico vagando pelo quarto escuro, fazendo dele meu mundo de poucos metros quadrados, como se não houvesse nada além disso para se viver. Às vezes me pergunto se realmente há, aliás. Tenho a impressão de que as coisas perderam um pouco do seu sentido real naquele dia que você partiu. E dói saber que eu não pude fazer nada para evitar.

Digo agora que ganhei uma sobrevida, que apenas me arrasto sem a perspectiva de melhoras. Se você pudesse ler isso, iria dizer que é besteira minha pensar assim. Provavelmente me daria um tapa no braço e diria que sou um bobo. Mas você não pode mais fazer isso, não é? E até disso eu sinto falta. E de você andando rápido pelas ruas como se fugisse de mim. E de você gritando pela janela do seu apartamento que o mundo era pequeno demais para nós dois. Só que o mundo foi pequeno demais para você, que resolveu partir e me deixar assim. Com essas incertezas e essa dor que parece não cessar.

Você destruiu seu mundo e levou o meu. Eu não merecia isso. Por causa do seu egoísmo, tenho agora uma sombra que me impede de seguir em frente, mesmo depois de tanto tempo. Você não imaginou que seria assim, eu sei. Achava que a decisão era sua e que não atingiria ninguém à sua volta. Ilusão. Se você visse como sigo desde então, talvez se arrependesse de ter feito o que fez. Agora é tarde.

Eu adoro dias de chuva. Mas hoje, mais do que nunca, eu odeio você.

Domingo, Dezembro 23, 2001

Amicitia Omnia Vincit

Eles se conheceram quando tinham por volta de 13 anos, ainda na sétima série. Foi durante uma aula de educação física. Jogo de futebol. Por não fazerem parte de nenhuma "panelinha", ficaram de fora das 3 primeiras partidas. Enquanto viam os demais garotos discutindo para ver que equipe jogaria sem camisa, começaram a conversar sobre amenidades da vida estudantil. O ano letivo iniciara-se há poucos meses e começava ali uma amizade que duraria por alguns anos.

Vinicius adorava desenhar e vivia fazendo caricaturas das pessoas com quem convivia. Daniel fazia teatro desde os 10 anos de idade e sonhava trabalhar na televisão. Em comum, o gosto pelo basquete e a aversão a matérias que envolviam números. Além disso, ambos eram muito tímidos, mal falavam com os colegas de classe. Nunca eram chamados para as festinhas de final de semana e nem participavam das brincadeiras que rolavam no recreio.

Durante as aulas, sentavam-se juntos, sempre no início da sala, já que a parte de trás era tomada pelos "populares" - aqueles que adoram fazer bagunça e acham que são o maior sucesso com as garotinhas por tirarem onda com a cara de todos e serem expulsos das aulas constantemente. Por conta disso, os dois começaram a ser considerados esquisitos pelos demais alunos. As garotas riam quando passavam; os garotos esbarravam caso ficassem no caminho, fingindo que nem sequer os viam.

Não demorou muito para que os comentários maldosos e típicos de crianças que começam a descobrir sua sexualidade surgissem. Logo os dois estavam sendo chamados de "viadinhos", "boiolas" e outros apelidos do gênero. Em princípio, tentaram ignorar o que era dito. Com os boatos se espalhando, porém, um incômodo foi crescendo e Vinicius sugeriu que se afastassem um pouco, o que Daniel aceitou prontamente.

Isso não durou mais do que um mês, pois como não falavam com mais ninguém, o isolamento foi inevitável. Retomaram a amizade e decidiram ignorar o que as pessoas diziam. Aos poucos os boatos foram sumindo, terminando de vez quando Vinicius começou a namorar, no ano seguinte, uma aluna nova no colégio. Essa relação, aliás, iria durar até o seu primeiro ano de faculdade, quando seriam separados por forças maiores do que a vontade de ambos.

Agora Daniel estava ali, em pé diante da cama do hospital, olhando seu amigo de infância deixando a vida sem que pudesse fazer qualquer coisa para evitar. Leucemia. Apesar de todo um ano de tratamento intensivo desde que se descobrira a doença, seu organismo parecia não ter uma reação mais efetiva. Na sala de espera, Juliana, a namorada de tantos anos, chorava copiosamente, abraçada à mãe de Vinicius. O pai, desesperado, fumava um cigarro atrás do outro, esperando algum milagre que revertesse a gravidade do quadro.

Lá dentro, Vinicius permanecia imóvel. Os tubos enfiados em suas vias respiratórias e o soro nas veias aumentavam a tristeza do ambiente. Seus cabelos ralos e seu rosto magro denunciavam que a batalha estava sendo perdida. Os olhos permaneciam fechados, como se estivessem em sono profundo. Daniel controlava-se para não chorar, ao mesmo tempo que sua mão pairava sobre a do companheiro. Apesar de muito abalado, não saía de seu lado. Estava no hospital há 4 dias, desde que uma parada respiratória levara Vinícius para lá.

Um médico chegou ao quarto. Em voz baixa, pediu que ele se retirasse dali, pois precisava fazer mais alguns exames. Daniel atendeu ao pedido, apesar de sentir que aqueles eram seus últimos momentos ao lado do amigo. Juliana abraçou-o com carinho. "Tudo vai ficar bem, você vai ver", falou ela sem a menor convicção. Ele olhou para os pais de Vinicius e reparou que já estavam desacreditados. Seus olhos encheram d'água. Não havia mais nada a fazer. Resolveu ir para casa e esperar pela notícia inevitável.

Ainda de madrugada, um telefonema rompeu o silêncio da casa. O choro de Juliana do outro lado da linha já dizia tudo. Levou as mãos à cabeça e se pôs a chorar também. Desligou o telefone e chamou um táxi. Não tinha condições de dirigir. O caminho pareceu durar muito mais do que deveria, o que só aumentava seu desespero. Assustado, o motorista até pensou em perguntar o que acontecera, mas desistiu logo. Levou seu passageiro até o hospital sem sequer trocar uma palavra.

Daniel juntou-se à família de Vinicius no quarto onde o amigo chegara ao seu fim. Juliana estava sentada em um canto, segurando um copo com água. Era visível que estava sob o efeito de calmantes. Ele foi até ela e segurou sua mão. "Por que logo ele?", perguntou a jovem. Daniel abraçou-a e choraram juntos por alguns minutos.

A comoção generalizada deu lugar ao desespero quando a mãe de Vinicius gritou seu nome e se debruçou sobre o corpo do filho. Daniel sentiu um aperto no coração, uma angústia inimaginável. Juliana abaixou a cabeça, cobrindo os olhos com as mãos. O médico pediu a todos que se retirassem do quarto, pois precisava tomar as últimas providências para a remoção do corpo.

A perda de um amigo, de um namorado, de um filho daquela maneira não seria jamais esquecida por quem com ele convivera. Daniel pediu transferência da faculdade de História e foi morar sozinho em uma cidade do interior. Juliana, após dois anos de terapia, conseguiu retomar seus estudos e estava prestes a se formar no curso de Relações Exteriores. Os pais, como não poderia deixar de ser, sentiram a ausência do filho dia após dia até o final de suas vidas.

Um pacto silencioso e honesto se consolidara após o último suspiro de Vinicius naquela madrugada de outono, e permaneceria acompanhando a todos ao longo dos anos que se seguiram, bem como a lembrança daquele rapaz que tanto ensinara com sua dor e com a perda da luta pela vida. Daquele dia em diante, acima de qualquer coisa, estar vivo tornar-se-ia motivo de felicidade e de esperança para eles.

Como deveria ser para todos que têm o prazer de acordar toda manhã e saber que ainda estão ali.

Segunda-feira, Dezembro 17, 2001

Para Entender Os Humanos

A noite começava a cair quando ela chegou à portaria de seu prédio. Esbaforida, adentrou a portaria e apertou o botão do elevador. 12º andar. Iria demorar alguns minutos para descer, e ela não podia esperar tanto. Tomou as escadas e subiu correndo até o seu apartamento no 8º andar.

Abriu a porta de casa e acendeu a luz. O apartamento ainda estava revirado. Papéis espalhados e roupas por todos os lados davam o tom caótico do local, assim como os objetos jogados ao chão e os vidros rachados que não a deixavam esquecer o que havia acontecido a poucas horas naquele mesmo local.

Deviam ser pouco mais de três da tarde quando a campainha tocou. Pelo pequeno orifício da porta pode ver quem se encontrava ali. Deu dois passos para trás e pensou se valia a pena abrir. Caminhou até a cozinha e pegou um copo d'água, enquanto a campanhia voltava a tocar. Aproximou-se da porta e, com uma calma surpreendente, abriu.

Olhou o relógio e viu que já se passavam das oito horas da noite. Pegou uma roupa qualquer no armário e entrou no chuveiro. Aprontou-se em pouco mais de 20 minutos. Reparou mais uma vez no apartamento todo desarrumado e teve ainda mais raiva do que havia acontecido. Porém, como estava com pressa, não podia perder tempo arrumando as coisas agora. Apagou a luz e fechou a porta.

Ele entrou rapidamente. Olhou-a nos olhos e disse que precisavam conversar. Ela continuou bebendo sua água, com certa indiferença ao que ouvia. Não conseguia abstrair, contudo, da tristeza que tomava conta da face daquele que um dia amara tanto. Num gesto desesperado, tentou pegar sua mão, e ela, arredia, esquivou-se. Mandou que se sentasse e colocou o copo na pia.

Enquanto descia no elevador, ia cantarolando baixinho a melodia de "My Funny Valentine". Sempre que estava triste colocava essa música para tocar, mas nem para isso ela tinha tempo agora. Já estava ficando tarde e iria acabar se atrasando ainda mais. Como era impossível esquecer aquele hábito, seguiu cantarolando até chegar à garagem e pegar seu carro.

Já fazia meia hora que ele estava ali, falando sem parar. Ela continuava apenas observando, pensando até quando aquilo iria durar. As lágrimas caíam compulsivamente dos olhos do rapaz, com ela permanecendo impassível diante de toda aquela cena.

As ruas livres eram um convite à direção perigosa. Ela acelerou seu carro, ultrapassando os cento e vinte quilômetros por hora. O rádio às alturas tocava algum antigo sucesso dos Rolling Stones. Quem a visse tomada por tal euforia, jamais poderia imaginar que não mais do que oito horas atrás estava num estado de absoluta insatisfação.

Levantou-se do sofá e caminhou até o quarto. De lá, trouxe uma caixa de tamanho razoável. Abriu-a sem dar uma palavra e foi retirando um a um todos os presentes que ele havia lhe dado em quatro anos de relacionamento. Quando acabou, secamente se pronunciou: tire-os daqui. Ele ficou atônito.

Dirigia agora calmamente. Estava chegando e não precisava mais ter tanta pressa. Apesar do atraso, conseguira estar lá em um horário bastante razoável, e não haveria de ouvir reclamações por causa disso.Estacionou o carro e desceu, caminhando logo até a entrada.

O rapaz não consegui acreditar no que estava acontecendo. Não iria ficar ali suportando tamanha humilhação por nada. Resolveu então mudar aquela situação. Foi até a estante e, enquanto ela permanecia sentada, observando-o, atirou ao chão tudo o que ali estava. Em seguida, abriu as gavetas da escrivaninha e revirou os papéis, espalhando-os por todo canto.

Tocou a campainha por três vezes, mas ninguém atendeu. Estranhando tal situação, puxou o telefone celular da bolsa e discou. Conseguiu ouvir o telefone tocando dentro da casa, porém não obteve retorno do outro lado da linha. As luzes do lado de fora estavam acesas, o que parecia ser um indício de que havia alguém lá.

Partiu para cima dele com raiva e tristeza. Sabia que tinha dado motivos para que ele tomasse uma atitude como aquela, mas mesmo assim sentiu-se injustiçada. Ergueu a mão e tentou dar-lhe um tapa na cara, no que foi prontamente impedida por outra mão, a dele. Gritava para que a soltasse e ele não parecia ouvir. De pé, permanecia ali a olhá-la, agora com uma estranha indiferença.

Tentou tocar mais duas vezes a campainha. Sem sucesso, optou por pular o muro e ver o que estava acontecendo. Os cachorros não latiram. Conseguia agora ouvir bem ao fundo uma música, algo como uma velha canção típica. Caminhou pelo pequeno terreno que separava o muro da porta da casa com certo receio do que pudesse estar acontecendo. Chegou até a janela e olhou para dentro da sala.

Ele virou as costas e foi embora do apartamento. Ela ficou jogada ao chão, chorando copiosamente. Em sua cabeça, a idéia de que algo precisava ser feito como resposta era pulsante e repetitiva. Não queria mais aquele cara na sua vida, e faria de tudo para que ele sumisse de vez.

Lá dentro, o ambiente não estava muito claro. Apenas a luz de uma pequena luminária preenchia a sala. Seus olhos, porém, avistaram uma cena que ficaria marcada para o resto da sua vida: o rapaz agarrava uma outra jovem por trás, ambos sem roupa. Deitaram-se no chão e iniciaram uma transa tórrida, a qual lhe arrancou lágrimas de indignação. Saiu de lá com pressa, visivelmente transtornada.

Ele nunca mais a procurou, ela também não. Por mais que um ou outro tivesse alguma recaída, mantiveram o distanciamento necessário para se tornarem apenas um ponto no passado, a sombra de uma relação conturbada e sem importância, no final das contas. Assim como devem ser todas as relações.

Sexta-feira, Dezembro 14, 2001

Saldo Final

Durante muito tempo eu procurei entender suas atitudes, seus sentimentos

Tentei ser paciente, ser mais compreensivo e aceitar que você podia estar confusa

Depois, sofri calado com as suas certezas, as quais descobri só existirem em relação a mim

Agüentei suas idas e voltas, sua inconstância e sua insegurança

Fiz papel de bobo, como todo apaixonado

Só que a partir de hoje isso não vai ser mais assim

Cansei do seu jogo, cansei de ser o palhaço nessa história toda

Não quero mais isso para mim

Você foi e ainda é muito importante para mim, é claro

Mas eu não mereço sofrer dessa maneira

E você não merece que eu sofra por você

Aliás, você nem merecia mais essas palavras

Só que eu ainda sou idiota a ponto de escreve-las

O que me consola é saber que uma hora isso vai acabar

Afinal, não há dor que demore tanto

Sabe, eu devia era deixá-la ir embora de vez

Esquecer que um dia você existiu para mim

Que é para ver se eu consigo ser mais feliz

Já que assim não está dando para viver

Quinta-feira, Dezembro 13, 2001

Estranhos

O sol começava a se pôr logo que ela chegou à praia. Uma brisa fresca amenizava o clima, e a quietudade que se instaurava naquele trecho isolado da orla lhe dava a calma necessária para organizar seus pensamentos.

Sentou-se na areia e passou a observar o mar. As ondas eram pequenas e raras, dando um aspecto de serenidade ao oceano, como se esse compartilhasse do seu atual estado de espírito.

Abriu sua bolsa e de lá tirou um pequeno baseado, o qual acendeu rapidamente. Deixou seu corpo tombar na areia. Deitada, sentia-se mais leve; tinha a sensação de que nada poderia lhe perturbar.

Permaneceu assim por alguns minutos, até que resolveu levantar e caminhar um pouco. Avistou a alguns metros um grupo de 3 surfistas sentados na areia e lhe pareceu ser interessante ir até lá. Assim o fez, despretensiosamente.

Dois dos rapazes foram para o mar logo que ela se aproximou. Um, porém, permaneceu sentado, olhando-a fixamente. Ela o cumprimentou de forma tímida, ao que foi respondida com um gesto para se sentar.

Durante poucos segundos um silêncio perturbador se fez presente. Enquanto ele observava os dois amigos tentando em vão arranjar uma boa onda, ela mantinha os olhos baixos, perdida em sua viagem particular. O sol já não se fazia mais presente e a noite anunciava-se com um céu limpo e estrelado.

- Me dá um beijo?

- O quê?

- Me dá um beijo?

- Cê tá maluco? Eu nem te conheço, garoto!

- Eu sei... por isso mesmo!

- Ha! O que cê tá achando que eu sou?

- Não tô achando nada. Só quero um beijo, só isso...

- Cê acha que é assim? Fala sério!

Ela se levantou bruscamente. O rapaz não tentou impedi-la, sequer disse uma palavra. Permaneceu sentado, observando o movimento do mar. Enquanto isso, ela se afastava dali, visivelmente incomodada com o que havia acabado de acontecer.

Os seus passos foram se tornando mais lentos aos poucos. Na sua cabeça, uma grande confusão se fazia agora. Apesar da forma com que foi feito, ela não podia negar que o pedido lhe havia deixado feliz. Estava sem alguém há um bom tempo, e tinha sempre a impressão de que não era desejada por ninguém. Mal ou bem, o que acontecera há pouco fôra bom para o seu ego.

Parou de repente. Olhou para trás e viu que o rapaz estava no mesmo lugar, na mesma posição. Os amigos pareciam ter desistido das ondas e conversavam animadamente sentados em suas pranchas na água. Caminhou decidida até ele, que mesmo com sua aproximação permaneceu com o olhar perdido no horizonte.

Sem que dissesse uma palavra, ela lhe deu um beijo afoito. O rapaz nada fez. Ela, confusa, surpreendeu-se com a atitude dele.

- Cê não vai fazer nada?

- Como assim?

- Cê não queria um beijo?

- Sim.

- E agora que eu resolvo te beijar cê faz isso?

- Isso o quê?

- Não reage, não faz nada!

- O que cê queria? Eu nem te conheço...

Terça-feira, Dezembro 11, 2001

É Isso Aí

- Já viu como a lua tá bonita hoje, Dani?

- Ah, nada demais...

- Como não? Olha lá, repara como ela tá brilhando...

- Você bebeu, Fernando? Foi isso?

- Que bebi o quê! Olha como ela tá linda...

- Sei, sei...

- Você não acha?

- Na boa, deixa de ser bobo...

- Bobo não... romântico!

- Ah, tá! E não é a mesma coisa?

Segunda-feira, Dezembro 10, 2001

Sem Título

Hoje eu queria te ver

Queria ouvir sua voz, falar besteira, deixar você me fazer um pouco mais alegre

Queria dizer que ainda te adoro demais, que você continua sendo muito importante para mim

Queria sentir sua presença, admirar seu sorriso e entender o que seus olhos tanto me dizem

Queria esquecer o quanto já sofri por você, perdoar tudo de errado e só tentar ser feliz contigo

Queria acreditar que ainda há uma chance pra gente, que tudo ainda pode melhorar

Queria dormir e acordar sabendo que você é minha, só minha

Queria não estar tão distante assim

Porque hoje eu tive vontade de você

Quarta-feira, Novembro 28, 2001

Êxtase Para Um Final Feliz

“Preparei uma surpresa para você...”, falou ela com voz doce, ao mesmo tempo que cobria os olhos dele com uma venda. A porta do apartamento mal havia sido aberta, mas ele pode perceber que havia algo de diferente lá dentro.

“Não olha agora, já disse!”, continuou. Segurou-o pela mão e foi conduzindo-o a passos lentos pela sala. Um cheiro gostoso preenchia o ar, em perfeita harmonia com a música que tocava bem ao fundo, a qual ele reconheceu como “All Blues”, de Miles Davis.

“Calma, já vou deixar você tirar a venda!”, disse ela com entusiasmo pueril. Fez com que ele se sentasse no sofá bruscamente e se afastou dali rapidamente. Ele permaneceu ali, curioso com o que estava por vir e sem conseguir esconder um sorriso de satisfação.

“Não tenta tirar!”, gritou. A voz não veio de muito longe, e logo ele afastou a mão do rosto. Aos poucos, começou a sentir que o ambiente esquentava. Estranhou aquilo, mas permaneceu imóvel ao ouvi-la assobiando não muito longe dali.

“Está quase na hora, relaxa...”, ela sussurrou. Ele já não agüentava mais de ansiedade, e tentou se levantar do sofá. Foi surpreendido com um empurrão forte, obrigando-o a sentar novamente. A música que vinha do som agora era mais alta, e o cheiro agradável tinha desaparecido.

“Estica as mãos, vai...”, pediu com muito carinho. Desconfiado, ele ainda tentou saber do que se tratava, mas a repetição do pedido o fez ceder. Sentiu algo fechar em seus pulsos, e reagiu com um pulo e um berro assustado. Havia cheiro de queimado.

“O que houve? Confia em mim, amor...”, falou calmamente. Ele, irriquieto, relutou mais uma vez. As mãos dela tocaram suavemente seu rosto, acariciando-o em seguida. Aquele gesto o excitou de tal forma que decidiu deixar ela fazer o que quisesse.

“Agora estica as pernas!”, insistiu ela. Foi atendida prontamente. Dessa vez, seus tornozelos é que foram presos. Já sabia que eram algemas, e as fantasias que passavam por sua cabeça agora eram as mais diversas possíveis. O calor era insuportável agora.

“Pode olhar agora...”, ela disse, já retirando a venda. O sorriso que estava em seu rosto logo foi substituído por uma expressão de pânico. Ela estava parada em sua frente, com expressão séria.

“E então, gostou da surpresa?”, perguntou. Atrás dela, as chamas já tomavam boa parte do apartamento. Na sua mão, uma taça de vinho pela metade. Os olhos exprimiam um ar de maldade que contrastavam com a feição angelical que lhe era característica.

"O que é isso? O que é isso? Você é louca!!!!"

“Não, não... isso é apenas o que eu chamo de um final feliz, que tal?”

Terça-feira, Novembro 27, 2001

Por Não Ter Você

Hoje comprei esta flor
Para dizer que pensei em ti
Para pedir desculpas por minhas imperfeições
E para te agradecer por toda a paciência

Hoje comprei esta flor
Para ver se consigo me redimir
Por às vezes em atos não ter proporções
E para ver se perdoas minha intransigência

Hoje comprei esta flor
Para falar que não sou tão ruim
Para que tentes entender minhas reações
Enquanto me porto como criança de grande inocência

Hoje comprei esta flor
Para que não venhas julgar a mim
Um alguém de problemas sem dimensões
E vejas que sinto muito mais que carência

Hoje comprei esta flor
Para desfazer as impressões sem fim
De que não sou digno de suas atenções
E dos afetos de sua consciência

Hoje comprei esta flor
Para tentar que não penses em ir
E procurar por carinho em outros quarteirões
Quando me tens com total veemência

Hoje comprei esta flor
Para mostrar que não sei contigo agir
Enxergando todas as minhas pretensões
Como atos falhos sem qualquer consistência

Hoje comprei esta flor
Para tentar lhe fazer sorrir
E ter uma vez a decência
De assumir o quanto eu te adoro

Domingo, Novembro 25, 2001

Reflexão de Botequim

- O que você tá olhando?

- Como assim?

- É, o que você tá olhando?

- Você, ué!

- Por quê?

- Como assim "por quê"?

- Porra, por que você tá me olhando?

- Porque eu gosto de olhar para você! Eu hein...

- Mas gosta porque acha bonito ou porque gosta de mim?

- E eu que vou saber?

Terça-feira, Novembro 20, 2001

Das Incertezas

E a cada dia que se passa com uma nova frustração
Volto a me perguntar onde está o meu erro
E desejo avidamente que esse sofrimento todo
Encontre logo uma maneira de chegar ao fim.

Sexta-feira, Novembro 16, 2001

Confusões

Ele quer tudo como era antes. Sabe o quanto ela é importante, o quanto ela é especial. Gosta muito dela, é verdade, mas sabe que essa relação acaba fazendo mal para ambos. Não consegue se controlar, e acaba vivendo tudo com tanta intensidade que a ama e a odeia com a mesma freqüência. Tem horas que sente vontade de mandá-la ao espaço, pedir para que suma de vez da sua vida. Mas também tem os momentos em que não consegue pensar em sua vida sem ela, e tem vontade de telefonar, de dar nela um abraço bem apertado, de chamá-la para sair. Só que não o faz, é claro. Seu orgulho é muito grande para isso.

Ele sabe que o tempo infelizmente não volta, e que tudo que aconteceu não pode ser apagado assim, de uma hora para outra. Os sentimentos envolvidos em todo o processo não têm como simplesmente serem ignorados, como se não fossem fortes o suficiente para fazer com que o mundo dele seja maravilhoso ou desabe por causa de um ato ou de uma fala dela. Ao mesmo tempo, queria que nada disso precisasse sumir daquela relação. Queria poder continuar apaixonado por ela, queria poder continuar com a certeza de que ela é a pessoa certa, queria poder ainda ter esperanças de que um dia ficarão juntos e serão felizes. Mas ela já desfez todos os seus sonhos, já lhe mostrou que as coisas não podem ser assim. A cabeça dele até entendeu, mas o seu coração... não tem jeito, não consegue mesmo. É muito burro.

Ele ouve de todo mundo que está na hora de partir para outra, de erguer a cabeça e seguir em frente. "Só uma nova paixão para apagar uma antiga", não é? Quanta hipocrisia. Ele sente que é impossível se envolver com alguém se não a tira da cabeça. De certa forma, sabe que seria o melhor a fazer, pois ela realmente não o quer. Mas ele gosta de ser idiota, de quebrar a cara, e continua achando que pode mudar a opinião dela. Por conta disso, sofre a cada dia que a encontra e não a tem. Uma hora vai acabar aprendendo, é verdade, mas por enquanto ainda é muito difícil. Melhor seria se ela sumisse do mundo, se o deixasse em paz de vez. Será mesmo?

Ele conta os dias que está em casa e não a vê. Aluga filmes do Woody Allen para tentar melhorar seu humor e ver se o tempo demora menos a passar. Ouve três vezes seguidas aquela música que ela adora e tem vontade de morrer. Ou de matá-la, é verdade. Sente raiva por ela estar lhe trazendo tanto sofrimento, tanta solidão. Só que também a adora, mesmo sem saber o porquê. Ela realmente mexe com seus sentimentos. "Maldita hora que a conheci", fica repetindo para si mesmo. Mal sabe ele que isso é apenas o começo...

Ele quer se declarar mais uma vez. Mandar flores, chamá-la para sair. Porém, cada vez que eles se falam um pouco disso vai morrendo. É verdade que sua teimosia não o faz acreditar por completo no fato dela não o querer mais, mas mesmo assim está cansando um pouco dessa situação. Uma hora ele vai estourar, uma hora ele não vai mais aguentar. Ela não pode ficar manipulando a situação desse jeito. Será que não consegue respeitar o que ele sente? Não é tão difícil assim.

- Por que você continua me ligando?

- Porque eu gosto de você. Você não gosta de mim?

- Gosto, claro.

- Então pronto. Vamos ser amigos?

- Você está louca?

- Assim não dá, assim não dá.

- Mas não quero que você vá embora.

- Não?

- Não.

- Por quê?

- Sei lá.

- Eu não entendo...

- Nem eu, nem eu...

Segunda-feira, Novembro 12, 2001

Pronto Esquecimento

Era uma manhã de terça-feira quando tomou uma decisão que mudaria radicalmente sua vida: “a partir de hoje, serei uma pessoa mais egoísta”. Contou a todos, espalhou a notícia radiante, vendo naquele ato a chance de resolver todos os seus problemas.

A princípio, não houve uma pessoa que não se chocasse. Logo ele, que sempre fôra o ombro amigo, o cara com quem se podia contar a qualquer momento, iria abandonar esse comportamento e passar a pensar apenas em si mesmo? Que absurdo!

Mas ele estava de fato decidido. Para começar, decidiu acabar com todas as relações que considerava mantidas apenas por conveniência. Deixou claro que não era um amigo, que determinadas pessoas não poderiam mais contar com ele. Indicou que queria tê-los apenas como colegas, meros conhecidos a quem se cumprimenta de forma ocasional.

Com outros, foi ainda mais além. Pediu solenemente que sumissem de sua vida, pois não faziam a menor diferença. “Chega de me relacionar com pessoas inexpressivas, que não têm nada a me acrescentar”. Acreditava mesmo nisso, e fez por onde esquecer rápido aqueles que se enquadravam nessa categoria.

A melhor mudança, porém, foi com aqueles que um dia tinham sido egoístas com ele. Passou a usar de um meio bem eficiente para se atingir alguém: tornou-se um cara falso, capaz de fingir grande empatia por quem mais odiava. Divertia-se muito dando conselhos inúteis e aparentando preocupação com os problemas alheios.
Seguiu agindo assim por um bom tempo, sem se sentir incomodado. Na verdade, vivia feliz dessa maneira, desprezando o mundo. Por mais que tivesse perdido uma ou outra pessoa importante nessa transformação, tinha se livrado de vários estorvos, o que já era motivo para uma sensação de conquista.

Teria seguido com isso muitos anos se um fato não o fizesse questionar o sentido daquilo tudo. Certo dia, teve o impulso de ligar para ela, a pessoa que mais amor lhe havia dado e que, sem motivo aparente, ele resolvera afastar. Ao ouvir a voz dela, estremeceu. Quando começou a falar, no entanto, deparou-se com um seco comentário: “as coisas não voltam atrás”.

Nesse momento, começou a chorar. Por conta de seus medos e de suas incertezas, havia desprezado aquela que lhe oferecera a verdadeira felicidade, e agora só lhe restava alimentar-se das relações vazias e falsas que faziam parte da sua vida desde então.

Ao desligar o telefone, teve vontade de morrer, de sumir do mundo. Foi então que percebeu que se deu conta de que tinha como faze-lo, pois isso já havia sido realizado há muito tempo, na manhã daquela longínqua terça-feira, quando decidiu viver só para si.

Aprendeu tarde demais o quanto precisava daqueles que considerava inferiores.

Quarta-feira, Novembro 07, 2001

Depois do Amanhecer

Não devia ser mais do que nove da noite quando o som de um disparo rompeu a madrugada naquele bairro tão quieto. Algumas pessoas, assustadas, corriam às ruas para ver o que havia acontecido. Outras, mais precavidas, preferiam manter-se na segurança de suas casas, apenas abrindo as janelas para se certificarem do ocorrido.

A praça, iluminada pela lua cheia que dava àquela noite um teor macabro, era agora o cenário de um crime aterrorizante. Lá, jogado ao chão, o corpo de uma adolescente de uns quinze anos, nu e ensanguentado, demonstrava com vigor os impulsos de crueldade que um ser humano pode ter. Ao seu lado, atônito, um rapaz de cerca de dezessete anos empunhava uma bela pistola prateada, da qual se podia sentir à distância o calor de um disparo recente.

Um grito desesperado quebrou o tom monocromático daquela cena. A mãe da jovem, aos prantos, correu em direção ao cadáver, talvez pensando ser possível fazer algo ainda. Foi inútil. Ao chegar ao centro daquela praça, constatou que a vida de sua filha havia sido de fato tirada por um imbecil qualquer, um desequilibrado, um rapaz que não aparentava ter a menor noção do valor de uma vida.

Os moradores começaram a se aproximar lentamente, temendo um novo disparo. Enquanto isso, o jovem permanecia quieto, como se não estivesse presente àquela cena. Seu rosto, pálido, não deixava transparecer qualquer tipo de sentimento, fosse de raiva, angústia ou arrependimento. Apenas permanecia ali, imóvel, enquanto a mãe da moça desesperava-se ao abraçar o corpo embanhado em sangue. A face da menina dava uma falsa impressão de alívio, enquanto o buraco da bala que atravessou o pescoço jorrava ainda o restante de sangue que cismava em permanecer correndo por suas veias.

Ao perceber a quietude do rapaz, alguns homens do bairro aproximaram-se dele. Com raiva, jogaram-lhe ao chão e passaram a deferir chutes fortes por todo o seu corpo. Nem assim obtiveram qualquer espécie de reação. Era assustadora sua frieza: a quem acompanhava cena, era possível acreditar que ele fosse o morto, não a pobre moça. Abriu levemente a boca, como se fosse dizer algo. Antes que o fizesse, um soco lhe foi dado com firmeza. Desacordado, foi carregado até uma árvore próxima.

Ali teve suas roupas arrancadas e seu corpo amarrado. Dois homens aproximaram-se e, de forma cuidadosa, despejaram álcool da cabeça aos pés do rapaz. Em seguida, atearam fogo. O espetáculo arrancou aplausos de todos na praça, à exceção da pobre mãe que ainda chorava copiosamente ao lado do corpo da pobre moça. Ninguém mais se preocupava em consolá-la; a cena do rapaz sendo queimado vivo parecia muito mais interessante do que o outro crime brutal que havia sido cometido naquela noite.

A madrugada passou em festa, com a morbidez de tudo aquilo sendo celebrada como parte natural da vida humana. A jovem permanecia caída ao chão da praça, com o rosto exprimindo uma expressão de alívio, como se alguém tivesse feito um favor ao tirá-la a vida. Do rapaz, sobrara apenas uma estrutura disforme, irreconhecível, muito longe de lembrar qualquer forma humana.

Na manhã seguinte, os corpos foram levados dali. Enquanto isso, a população fechava suas portas e janelas e voltava a seu cotidiano puro e medíocre, seu mundo de paz que cismava em se modificar em acontecimentos esporádicos como o da noite anterior. O sol voltava a iluminar a praça, e toda a violência presenciada a poucas horas em breve seria apenas uma lembrança distante, uma marca feita a carvão que seria levada pela chuva com a mesma facilidade com que foi trazida.

Era apenas mais um dia naquele bairro tão quieto.

Terça-feira, Novembro 06, 2001

Drama de Morte

O grande número de pessoas concentradas em volta do corpo atestava o gosto pelo mórbido que o ser humano tem. Em uma tarde de terça-feira, não menos do que 30 pessoas estavam ali, paradas naquela rua do Leblon, observando o cadáver de um jovem de aproximadamente vinte e três anos. O porteiro, desesperado, tentava afastar a todos, enquanto esperava a chegada da perícia. O rapaz era morador do prédio em frente. Décimo primeiro andar. Estava sozinho em seu apartamento. Tudo indicava que havia sido suicídio.

A chegada dos especialistas do IML e uma revista ao corpo confirmaram as suspeitas, logo que foi achada uma carta no bolso do terno que usava. Esse fato, por sinal, era bastante curioso. Por que usar um terno para se matar? Para se morrer com elegância? Ninguém conseguia entender.

De qualquer forma, todos que estavam em volta, ao verem o papel, começaram a pedir afoitamente a leitura do mesmo em voz alta por um dos encarregados de remover o corpo. Quem sabe ali não teria os motivos que o levaram ao suicídio? O rapaz agora parecia fazer parte da vida dos que ali se encontravam desde o ocorrido, e não houve quem saísse dali até que a carta fosse lida.

Alguns olhos marejaram, alguns ouvidos mostraram-se atentos, alguns corpos tremeram assim que suas últimas palavras começaram a ser lidas para aquela platéia.

"Hoje pensei em me matar. Na verdade, venho pensando nisso constantemente, desde que tudo aconteceu. Uma, duas, três vezes por dia. Até já me preparei para fazê-lo, mas sempre desisto na última hora, tomado por uma esperança súbita e idiota de que tudo vai melhorar.

Penso que não devo desistir, mas penso isso sem firmeza. Sei que mais cedo ou mais tarde vou me dar por vencido. Será que ainda vai demorar muito? Não aguento mais essa espera. Esse sofrimento podia acabar logo, na boa. Simples, rápido. O que me falta para fazer? Coragem? Nada pode me fazer mais mal do que já venho me fazendo até aqui.

Viver com dor não é viver. Quero ser alegre, mas como? Tudo parece tão difícil. A cada dia me sinto mais sozinho, mais perdido. Com quem achava que poderia contar descobri que era uma ilusão.

Cansei de falsas promessas, de falsos carinhos. Dessa hipocrisia de fingir que gostam de mim eu não preciso, muito menos desse sentimento de pena que vocês que estão lendo essa carta estão tendo agora. É ridícula essa falsa preocupação. Que se foda o mundo! Eu não preciso de ninguém querendo tentar gostar de mim.

Por que as pessoas fingem? Por que tentam evitar que eu faça algo comigo se elas nem se importam de fato? Ninguém sabe o que eu tô sofrendo, e nem quero que saibam. Minha vida é só minha, eu faço o que quiser dela. Cansei de intromissões, de tentativas ridículas de compaixão. Esqueçam que eu existo. Esqueçam que eu existi, porra! A vida é assim, não é? Todo mundo chega ao fim um dia. Por que não posso escolher o meu?

Isso é como no cinema, vocês não entendem? Lá a gente escolhe o destino do personagem logo que se começa a escrever a história. É mais simples assim. Por que não posso ter o direito de fazer isso com a minha vida? É mais simples assim.

Pensar demais faz mal. É, cansei de ouvir isso dos outros. Então agora não quero nem pensar, só acabar logo com isso. Sem medo, sem culpa. Eu criei meu mundo assim, agora acabo com ele também. É minha decisão, é minha vida, e não quero mais me fazer esse mal.

Desejo que o mundo siga em frente, com toda sua mediocridade, mas sem mim. Só espero que as pessaos sejam muito felizes. Felizes como nunca fui."

Quando as últimas palavras acabaram de ser lidas, o corpo já havia sido retirado do chão. Aqueles que presenciaram o ato final de um personagem anônimo foram-se com a certeza de que o suicídio não era uma boa saída para se resolver os problemas. Mas, com toda certeza, era perfeito para tornar a morte um drama muito maior do que deveria realmente ser.

Segunda-feira, Novembro 05, 2001

Hoje é um bom dia para o "Rumo Ao Nada". Resolvi tomar vergonha na cara e inserir um contador nessa bagunça. Vamos ver se a freqüência de visitas anda sendo boa mesmo...

Domingo, Novembro 04, 2001

Outubro

Pediu mais uma taça de vinho ao garçom e se calou novamente. Devia ser a sétima ou a oitava, não sabia mais. À sua volta, por todo o restaurante, pessoas comiam e bebiam freneticamente. Falavam alto. Estavam felizes e em grupos. Enquanto isso, ele estava ali. Numa mesa de canto, sozinho, calado. A pouca luz do ambiente fazia com que ninguém o notasse. Talvez por isso tenha chorado.

A cadeira vazia à sua frente parecia representar muito mais do que ele próprio imaginava. Era o retrato fiel do que havia feito com sua vida em pouco menos de um ano; mais precisamente, era a representação de seu maior medo, daquilo que o perseguia desde a infância: a inevitabilidade de, com o tempo, ficar sozinho de vez.

Assim que o garçom chegou com a nova taça, voltou a manter o controle. Enxugou os olhos com as costas da mão e agradeceu a eficiência do serviço. Em segundos, levou o recipiente até a boca e sorveu todo o líquido. Queria embriagar-se para ver se diminuia toda a angústia que sentia naquele momento. Entretanto, à medida que bebia, sentia sua dor crescer mais.

O quarteto de jazz já tocava há uma ou duas horas, mas só agora o havia notado. A música que preenchia o ambiente agora lhe trazia recordações em péssima hora. "My Funny Valentine". Escutara pela primeira vez ainda jovem, interpretada por Ella Fitzgerald ou Chet Baker, não sabia ao certo. Mas sempre fora a sua preferida, e marcara, mesmo que ela não soubesse, toda a sua história com a única pessoa que havia amado de fato. Sem ela ali, toda aquela cena não fazia sentido.

Não suportando aquela situação, pediu a conta. Antes, porém, foi ao banheiro. Lavou o rosto, ajeitou a gravata e tomou uma decisão. Não poderia se dar por vencido sem ao menos tentar uma última vez. Deu o dinheiro ao garçom e saiu do restaurante. Caminhando pela rua, avistou o prédio onde ela mora. Apesar de já serem mais de duas da manhã, viu que a luz da sala ainda estava acesa. Sem que desse tempo para questionar seus próprios atos, encaminhou-se até a portaria e pediu ao vigia que a chamasse.

A previsível recusa dela em recebê-lo foi imediata. Ele não se alterou. Calmamente, agradeceu ao empregado e se retirou dali. Enquanto caminhava para casa, trôpego, confuso, repensava toda a história, buscando o que havia feito de errado para que tudo terminasse assim. Uma vez mais, não conseguiu chegar a conclusão alguma.

Olhou para o céu e avistou a bela lua que iluminava tão triste noite. Lembrou-se da promessa que ela um dia lhe fizera, de que ele não haveria de ser triste enquanto ela estivesse viva, e esboçou um sorriso irônico. Como as coisas poderiam ter mudado tanto? Mais do que nunca, sabia que tinha posto tudo a perder.

Foi assim que, na melancolia de uma madrugada qualquer de Outubro, teve a certeza de que não nascera para ser feliz. Desde então, viveu sua vida esperando a morte chegar, desejando ao mundo que não padecesse do mesmo mal que ele: ter amor por alguém e não saber o que fazer com isso.

"Tornar o amor real é expulsá-lo de você
Pra que ele possa ser de alguém"

Nando Reis, "Quem Vai Dizer Tchau?"

Quinta-feira, Outubro 04, 2001

"Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada
Quando se parte rumo ao nada."

Paulinho Moska, "A Seta e O Alvo"
Caros leitores,
Sei que ando em falta com vocês, pois raramente tenho publicado algo inédito aqui. Não é por falta de vontade, acreditem. Já iniciei pelo menos 6 contos desde que migrei para esse novo endereço, mas não consigo finalizar nenhum. Estou passando por uma fase estranha, uma espécie de "ócio criativo" que nem eu mesmo sei o porquê da ocorrência. Na verdade, alguns motivos até vieram à mente, tais como a ausência de um contador de visitas no blog e o período de provas da faculdade, entretanto, nenhum deles me pareceu uma justificativa real. Por conta disso, venho comunicar que o "Rumo Ao Nada" estará funcionando precariamente a partir de hoje, sem garantia de publicações diárias. Acho que é a atitude mais justa que posso tomar para não frustrar os 5 ou 6 leitores que vêm me acompanhando nessa difícil empreitada desde o início. E, infelizmente, sou obrigado a admitir que, se as coisas não se modificarem, é provável até que eu desative esse blog em definitivo. Vamos ver se com o tempo tudo melhora. Até lá, agradeço a compreensão de todos vocês e torço para que dias melhores venham e me ajudem a manter esse espaço aqui.
Um grande abraço a todos,
Marcelo Caldas

Segunda-feira, Outubro 01, 2001

Resoluções Para o Novo Ano

Faltavam ainda 3 dias para a chegada do reveillon. No entanto, para Márcia a contagem regressiva havia começado há quase uma semana, mais precisamente na véspera de Natal.

Foi nessa data que, não sendo mais do que 10 horas da manhã, ela resolveu dar uma volta "para arejar os pensamentos". A rotina de sua casa havia se tornado desgastante desde que seus pais decidiram se separar, e isso não tinha um mês de ocorrido. De qualquer forma, já não aguentava mais conviver com aquilo, por isso a caminhada tão cedo parecia uma ótima alternativa.

O clima frio e o céu nublado davam o tom de melancolia ideal para um passeio como aquele. Andava a passos lentos, porém firmes, numa dualidade interessante. A cabeça parecia ter o peso de todo o universo, dando-lhe um grau de fadiga maior do que o normal. O restante do corpo, contudo, parecia se sublimar.

Poucos metros ela havia caminhado quando avistou uma aglomeração próxima ao sinal. Pensando ser um acidente com alguém conhecido, apressou-se em ir verificar o que lá acontecia. Ao chegar mais perto, causou-lhe uma enorme surpresa avistar um jovem de mais ou menos 22 anos fazendo alguns truques com malabares. Aquilo prendeu sua atenção de tal forma que passou a reparar na delicadeza com que o rapaz executava os movimentos.

Daniel, por sua vez, fitava os olhos azuis de Márcia maravilhado. Jamais tivera visão de tão singular beleza, e sentia-se hipnotizado pela moça. A atenção foi desviada de tal forma que ele deixou os bastões caírem ao chão. Os aplausos transformaram-se em um silêncio perturbador. Os parcos segundos imóvel diante daquela meia centena de gente lhe pareceram horas.

Em um gesto impensado, Márcia rompeu rompeu a barreira humana que se precipitava à sua frente e pegou os bastões. A Daniel entregou-os delicadamente, e aquele momento lhe pareceu tão íntimo que ignorou todos que os observavam e beijou com suavidade sua face. Ele apenas balbuciou um "muito obrigado" e seguiu com suas acrobacias, enquanto avistava a jovem sair do meio da roda e seguir seu caminho.

O que tinha acabado de acontecer comovera aqueles que, pasmados, viram a cena. Daniel nada ouvia, mas os lábios à sua volta pareciam lhe dizer para ir atrás daquela moça de quem sequer sabia o nome. Abruptamente, recolheu seus artefatos e colocou-se a correr, procurando-a. Márcia, porém, já havia sumido na paisagem.

Enquanto andava apressadamente para casa, lágrimas rolavam dos olhos de Márcia. Não entendia bem o porquê, mas aquilo lhe tocara de tal forma que preferiu fugir. Sentia-se despreparada para lidar com algo tão forte, tinha medo de encarar emoções até então desconhecidas.

Trancou-se no quarto logo que chegou em casa. Fechou as cortinas e deixou o corpo cair sobre a cama. Apesar da tarde mal ter se iniciado, adormeceu rapidamente.

Na manhã do dia seguinte, enquanto tomava o seu café, ela ouviu a campanhia tocar. Com todos na casa ainda dormindo, resolveu atender. Ao abrir a porta, não avistou ninguém, só um envelope sobre o tapete de "boas vindas" no qual se lia, em letras cuidadosamente desenhadas, "aos mais belos olhos que já encontrei".

Márcia leu toda a carta em poucos minutos. Em seguida, correu para o quarto, trocou de roupa e saiu à procura daquele que tinha revirado seus sentimentos. Chovia forte, mas isso não iria impedir que consertasse o erro da omissão no dia anterior.

Ao chegar à esquina, seus olhos marejaram. No mesmo lugar de antes, avistou Daniel fazendo seus malabarismos. Dessa vez, todavia, não havia ninguém à sua volta. Caminhou a passos lentos, porém firmes, na direção dele. Os olhares cruzaram-se novamente.

Daniel deixou os bastões caírem. Márcia fez menção de pegá-los, porém os atirou para o lado. Ambos respiravam forte, arfantes. Sem deixar que balbuciasse qualquer coisa, ela o beijou com enorme ternura, em uma cena digna dos grandes romances literários.

Com a chuva ainda caindo sobre os dois novos amantes, uma meia centena de pessoas cercou-os lentamente. Em meio a aplausos e gritos, saudaram a realização de tão forte amor.

O novo ano que em breve iria se iniciar prometia ser dos melhores.

Domingo, Setembro 30, 2001

O Maior Espetáculo da Terra

Dez. Vinte. Trinta minutos, talvez. Na verdade, nenhum dos que estavam ali presentes poderiam precisar há quanto tempo aquele corpo estava jogado no asfalto quente. A face, desfigurada, deixava claro que o impacto havia sido muito forte. "Ela morreu na hora", diziam alguns. "Será que ela chegou a sentir dor?", perguntavam outros. Enquanto isso, o cadáver permanecia ali, largado ao chão, desfazendo-se do pouco sangue que ainda insistia em correr nas veias da pobre moça.

Não devia ser mais do que meio-dia quando ela saiu de casa. Sabia que ia ter um dia atarefado, e estava atrasada. "Tenho que parar com essa vida vagabunda", repetia para si mesma enquanto descia no elevador. Os cabelos ainda estavam molhadas e tentava, desajeitadamente, passar batom nos lábios ao mesmo tempo que, já na rua, apressava o passo para chegar ao ponto de ônibus.

A pressa de nada adiantou, porém. Amargou uma longa espera até que passasse um ônibus que servisse. Quando chegou, a multidão que se aglomerava lá dentro quase a fez desistir, mas o fator tempo foi determinante para que continuasse. O trajeto comum demoraria pelo menos uma hora, não poderia mais esperar.

Poucos quilômetros tinham sido percorridos quando uma freada brusca surpreendeu a todos os passageiros. Em meio a cabeças que se precipitavam à sua frente, conseguiu enxergar, com certa dificuldade, o que ocorria. Diante do ônibus, duas viaturas fechavam a rua, impossibilitando qualquer passagem. Tentou, em vão, passar por entre as pessoas para sair da condução. Como única saída, resolveu saltar pela janela.

Ao fazer isso, contudo, não esperava que fosse ser interpretada de forma tão errada. Logo que alcançou o solo, avistou dois homens armados, apontando em sua direção. Em pânico e confusa, passou a correr sem rumo, ao mesmo tempo que ouvia três disparos e via o vidro do carro ao seu lado estilhaçando, o que não deixava dúvidas de quem era o verdadeiro alvo.

Entrou em uma rua transversal, esbarrando em todos que se encontravam no caminho, enquanto as vozes atrás dela iam se tornando mais intensas. Os passantes manifestavam-se, talvez surpresos com tão insólita cena, mas ela era incapaz de perceber quaisquer reações à sua volta.

Foi capaz de notar, no entanto, que estava agora diante de uma escolha difícil e que não poderia durar mais do que alguns segundos. Na frente, a poucos metros, uma avenida bastante movimentada. Logo atrás, dois homens que a perseguiam com armas em punho sem que ela mesma entendesse bem o porquê. Sua decisão foi puramente intuitiva e parecia a mais acertada no momento.

O som dos ossos se quebrando na frente do caminhão foi ouvido por todos que estavam na calçada naquele momento. Os dois policias sorriram com ar de escárnio e triunfo, virando as costas logo em seguida e caminhando lentamente na direção oposta.

Às treze horas e trinta e sete minutos daquele dia ensolarado de abril, uma pequena turma presenciou, atônita, a mais uma vida se perdendo de maneira insensata, digna dos filmes de grande bilheteria.

Quando o plástico preto cobriu o corpo em estado deplorável, as luzes se acenderam e a platéia foi para casa feliz por ter presenciado tão singular espetáculo da estupidez humana. O maior espetáculo da Terra.
O texto de hoje é bem diferente de todos que os 5 ou 6 leitores desse blog já viram por aqui. Tive que escrevê-lo "sob encomenda" para um trabalho da faculdade, o que já não me agrada muito. O resultado, porém, pareceu-me tão legal que pensei valer a pena publicá-lo. Quer dizer... não foi bem assim. Só tomei coragem de fazer isso porque a pessoa que mais critica tudo o que escrevo disse que estava realmente muito bom. Pois é. Como um elogio da parte dela é raríssimo, aqui está o texto. Vamos ver se estava certa...

Musicando

Corre um boato de que uma nova droga vem sendo misturada a bebidas alcóolicas em festas do alto escalão brasileiro. O sintoma é um só, e bem característico: aquele que ingere o alucinógeno diluído em seu “drink” passa a falar compulsivamente e sem qualquer relação de verossimilhança. Em casos extremos, dizem que a pessoa fala apenas por frases musicais. Não deixa de ser engraçado. Já estou até imaginando a cena: todos os convidados reunidos no salão e, de repente, sobe na mesa o anfitrião e começa a discursar:

“Meus bons amigos onde estão? Provavelmente caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento. O meu partido é um coração partido, e nessas horas percebo que nada do que foi será do jeito que já foi um dia, pois assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem vontade.

Vejam bem, isso não pode ser assim, tão ruim. Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves e ah, quanto querer cabe em meu coração! Cada vez que eu fujo, eu me aproximo mais, e ainda vai levar um tempo pra fechar o que feriu por dentro. Apesar disso, é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque o tempo não pára. É, eu sei que a espera é difícil, mas continuo sambando.

Claro que isso aqui tá muito bom, isso aqui tá bom demais. Aliás, quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo. Mas agora o que vamos fazer? Eu também não sei. É, é bom aprender... a vida é cruel. Tá certo, viver é melhor que sonhar, e eu sei que o amor é uma coisa boa. Por isso que eu não quero dinheiro, eu só quero amar. Às vezes penso que isso tudo foi um rio que passou em minha vida e que já não há caminho pra voltar. Porém, ainda assim, não vou dizer que já lhes esqueci.

De fato, do Leme ao Pontal, não há nada igual. É por isso que eu fico com a pureza da resposta das crianças: é a vida, é bonita e é bonita.

Muito obrigado pela atenção de todos!”

Sábado, Setembro 29, 2001

Em Você

Em certas noites, deito na minha cama e fico olhando o teto até tarde.
Nesse momento, penso em tudo que me acontece e vejo que o que eu mais desejo
É poder escolher melhor as palavras que digo
É poder esconder tudo aquilo que sinto
É poder mostrar que por você eu insisto
Mas aí percebo que minha bondade me impede de ser assim
E quando menos espero, desaprendo a gostar de mim.

Sexta-feira, Setembro 28, 2001

Verbos

De que adianta voar
Se Ícaro condenou a quem nos céus se aventurasse?

De que adianta andar
Se as pessoas caminham sem nenhuma dignidade?

De que adianta pensar
Se os cérebros pensam sem grande diversidade?

De que adianta falar
Se as bocas falam sem muita autoridade?

De que adianta ler
Se é proibido ler com pueril ingenuidade?

De que adianta escrever
Se não se pode escrever com certa liberdade?

De que adianta cantar
Se o mundo se cala ao ouvir o canto da novidade?

De que adianta amar
Se o coração não suporta as adversidades?

De que adianta viver
Se os verbos hoje já não mais expressam a realidade?

Quinta-feira, Setembro 27, 2001

E Se...

E se um dia você acordasse e visse que o mundo não era como você imaginava?

Se descobrisse que o céu é vermelho, como se feito de fogo,
Que as nuvens são amarelas, como se pintadas a dedo,
E que os mares são negros, como se escurecidos pelo medo,
Será que mesmo assim você teria medo de viver?

Se percebesse que as pessoas ao seu redor são foscas,
Que os carros que passam nas ruas são lentos,
E que a palavra é a maior arma de todos os tempos,
Será que mesmo assim você teria medo de correr?

Se acreditasse que a vida não é mais do que um estágio,
Que os seus sentimentos não são feitos para serem desprezados
E que a dor da perda não é algo que ocupa pouco espaço,
Será que mesmo assim você teria medo de sofrer?

Se entendesse que a grama não é mais verde do outro lado,
Que os pássaros não cantam apenas quando enjaulados,
E que a liberdade é algo que precisa sempre ser conquistado,
Será que mesmo assim você teria medo de esquecer?

Se não ignorasse que é importante dizer o que se pensa sempre,
Que as oportunidades não surgem sem um motivo aparente,
E que se deve a todo custo procurar seguir em frente,
Será que mesmo assim você teria medo de enlouquecer?

Se não esquecesse que ter alguém ao lado é essencial,
Que, quando se gosta, ignorar pode ser fatal,
E que o amor à primeira vista é algo real,
Será que mesmo assim você teria medo de querer?

Se pensasse que vencer em tudo não é necessário,
Que ter amigos ao seu lado é ser por eles estimado,
E que sozinho não se passa por nenhum obstáculo,
Será que mesmo assim você teria medo de perder?

E se um dia você dormisse e o mundo acabasse como um nada?

Quarta-feira, Setembro 26, 2001

Imagens

Avistou seu rosto no espelho e teve vontade de chorar. Não estava triste, é verdade, nem havia motivos para tal, mas mesmo assim teve vontade de chorar.

Pensou estar ficando louca, estar perdendo de vez todo e qualquer bom senso que ainda havia restado dentro de si, porém não poderia precisar o que de fato acontecia agora. Sentia-se estranha.

Esticou a mão em direção à imagem e a tocou com sutileza. Parecia não crer que o que via ali era ela mesma. Em um gesto fraco, deslizou os dedos pelo espelho, enquanto as pernas, irriquietas, mexiam de um lado para o outro.

Com calma e suavidade, pegou a tesoura que estava em cima da penteadeira. Andou até o armário e tirou o vestido mais caro que lá havia. Lentamente, cortou-o em vários pedaços. Amarrou-os pelas pontas, deixando-os com a forma de uma corda.

Um a um, foi cortando os fios de seu cabelo, até deixá-los totalmente disformes. Tirou os sapatos, a blusa, a calça. Apagou a luz do abajour. Com passos curtos, foi até a janela. Abriu-a. O vento que soprava no oitavo andar era forte e quente. A noite estava sublime.

Passou a mão pela testa e viu que suava frio. As pernas, antes irriquietas, agora estavam trêmulas. Não obedeciam mais. A cabeça pesava, lágrimas rolavam do rosto incessantemente.

Deu dois passos para trás. Respirou fundo, buscando coragem para fazer o que era necessário. Contou até cinco. Usou então toda a sua força e lançou janela afora aquele espelho maldito. À corda feita com o vestido propiciou destino semelhante, como se revidasse às mazelas da sociedade consumista.

Virou as costas para o mundo lá fora e orgulhou-se de sua atitude: "não há imagem que possa ser tão bela a ponto de se morrer por ela".

Terça-feira, Setembro 25, 2001

Amores Brutos

Já passava de meio-dia quando ela se levantou da cama. Era sábado, dia ensolarado, e não havia compromissos que a fizessem ficar preocupada por estar acordando tão tarde. A noite anterior tinha sido muito boa, e dificilmente conseguiria apagar da memória pelo resto de sua vida tudo o que havia acontecido.

Tinha sido tudo muito rápido. Um simples telefonema e pronto: lá se foi aquela rotina enfadonha de toda sexta-feira, regada a filmes antigos de locadora e pipocas de microondas. Há tempos vinha querendo fazer de seus dias algo diferente, mas por falta de opção ou companhia, acabava sempre ficando em casa. Mas agora...

Aprontou-se em menos de 40 minutos, e antes mesmo que pensasse em desistir, já estava descendo no elevador, rumo à garagem. Ao entrar no carro, reparou que não havia um cd para ouvir. Como não havia tempo para voltar ao apartamento, contentou-se em sintonizar uma rádio que tocava algo parecido com Barry White. Girou a chave na ignição, abriu o portão e saiu.

Lá fora, as luzes dos postes pareciam iluminar de forma diferente. O céu estava limpo, repleto de estrelas que ela achou nunca haver reparado antes. Quase não havia carros na rua, o que não era comum para um noite de sexta-feira. Pensou ser aquilo muito estranho, mas como nada poderia estragar o que iria fazer, continuou seu caminho.

Não demorou mais do que uma hora para chegar lá. O cenário era perfeito: inúmeras pessoas, todas bem vestidas, aglomeravam-se à porta. Sem muitas dificuldades, avistou a autora do telefonema. Caminhou apressadamente até ela e saudou-a de forma contida, bastante discreta. Estava ansiosa.

Juntas, andaram até o quarteirão seguinte. Pararam. A amiga caminhou até uma van estacionada a poucos metros e fez sinal para que a seguisse. Abriu a porta lateral e mostrou com orgulho o que lá havia. Era um arsenal digno de grandes guerrilhas. Armas e mais armas que só vira antes em filmes hollywoodianos. Era sublime.

Colocou um pedaço de meia-calça na cabeça. Em seguida, esticou os braços e apoderou-se de uma submetralhadora. A amiga ainda lhe entregou uma granada, para o caso de ser necessária uma medida "mais enérgica", e mostrou-lhe o fuzil que iria utilizar. A munição era vasta e, com toda certeza, mais do que suficiente para o que iriam fazer.

Entraram na van e seguiram até o local de destino, prontas para o grande ato. Em menos de 5 minutos, entornaram uma garrafa inteira de vodka. Era preciso uma última dose de coragem. Olharam para fora e repararam que os outros olhos não se concentraram nelas. Perfeito.

Foi tudo tão rápido que não possibilitou qualquer reação. Em pouquíssimo tempo, avistava-se algo em torno de uma centena de corpos, todos maravilhosamente manchados de vermelho. As duas, sorrindo, regozijavam-se, enquanto a van saía rápido do local do crime. Estava feito.

Começava a preparar seu café da manhã quando batidas incessantes à porta tomaram de súbito o ambiente. Ficou assustada. Abriu apenas uma pequena brecha e viu que se tratava
de sua comparsa, com uma garrafa de champagne em uma mão e uma caixa bem embrulhada na outra.

Comemoraram com prazer a perfeição daquele gesto insano. A caixa, porém, permanecia intocada. A amiga fez então um gesto para que a abrisse. Tirou o laço com suavidade e levantou a tampa. Olhou o que havia dentro e temeu que fosse verdade.

A explosão foi devastadora.

Nos destroços, os bombeiros encontraram incrivelmente intacto um pequeno papel no qual se lia, com letras tremidas, uma frase que parecia justificar tudo aquilo.

"O melhor só se adquire às custas de um grande sofrimento. Agora estaremos juntas."

E percebeu-se então que não havia amor tão forte que não fosse doentio.

Segunda-feira, Setembro 24, 2001

Aniversário

Às vezes parece que você acorda do lado do avesso, que nem devia ter acordado. Parece que o mundo todo conspira contra você. Como hoje.

Não fui trabalhar, mas deveria. É meu aniversário, pensei, não preciso ir. Vai tudo dar certo. Não vou acordar cedo só para trabalhar duas horas e voltar. Não vou. Não fui.

Tinha um almoço marcado com quem eu mais queria ver no dia de hoje. Especialmente. Hoje. Não vou poder ir, disse ela, tenho que ficar estudando. Mas a gente pode ir só na loja de cd's, não serve, perguntou ela. Não respondi. Mas fui.

É meu aniversário, vai tudo dar certo, pensei.

O celular tocando. Várias vezes. Atendi. Parabéns vinham. E iam. Os problemas vinham. E ficavam. Eu ia.
Desmarquei os outros compromissos. Só eu podia resolver tudo pelos outros. Só eu. Assim não vai dar, assim não. Vai. Só, fui.

É meu aniversário, vai tudo dar certo, pensei.

Ela ficou em casa. Me deu um abraço longo. E um beijo. Na bochecha. Não fica triste, falou, vai tudo ficar bem. E entrou. Eu fiquei ali. Parado. Pensando. Não sei nem como voltei. Me fui.

Mas é meu aniversário, vai tudo dar certo, pensei.

O carro não ligou. Não acreditei. Olhei o marcador. Zero. A gasolina se foi. Toda. 20 litros. 35 reais. 8 horas de trabalho. Já acabou. Em dois dias. E eu fiquei. A pé.

Mas é meu aniversário, vai tudo dar certo, pensei.

Cheguei em casa. Sem almoçar. 5 horas na rua. Nem tudo resolvido. Liguei para ela. Não estava em casa. O celular. Atendeu. Queria falar. Com ela. Não podia, estava ocupada. Só às 8 da noite. Mas são só 5. E a casa tá vazia. Eu também.

Mas é meu aniversário. Vai tudo.

E eu vou.

Domingo, Setembro 23, 2001

Sincretismo

Hoje acordei com uma sensação estranha. Não sei bem o porquê, mas tive a sensação de que as coisas tornaram-se bem diferentes em minha vida de uns tempos para cá (não poderia precisar desde quando, mas digamos que tempo suficiente para originar reflexões e devaneios diversos a respeito disso vindos de minha parte), e senti isso de maneira positiva, como se, no meio de um caminho errado, eu parasse e visse que era hora de seguir o rumo certo. Mas não sei mesmo de onde surgiu essa sensação. Estranho, não?

Hoje acordei com um pensamento engraçado. Não sei bem o porquê, mas acordei desejando ser uma outra pessoa, uma pessoa diferente da que fui até agora (não poderia precisar de que forma, mas digamos que diferente o suficiente para não originar reflexões e devaneios diversos a respeito disso vindos de outras pessoas), e senti isso de maneira inexpressiva, como se eu quisesse ser uma pessoa menos fria, menos cínica, mais certa. Mas não sei mesmo de onde surgiu esse pensamento. Estranho, não?

Nem tão estranho assim. Pensamentos e sensações desse tipo me acompanham com freqüência, desde que minha (fraca) memória registra a existência de vida nesse corpo. E talvez sejam até mais recorrentes do que trivialidades, fatos comuns à grande maioria da humanidade. É complexo, eu sei, mas até que me entendo melhor por crer nisso. Quase sempre o entendimento disso tudo é feito de maneira pouco usual, bem abstrata, o que impossibilita qualquer explicação. Mas não deixa de ser uma forma de entendimento. Às vezes gosto de estar ambíguo, ser um equívoco, mesmo que eu seja mais simples e mais certo do que pareço ser.

Para alguns, o que estou falando deve lhes parecer mais familiar, deve ter algum sentido. Para os demais, porém, não deve passar de um momento de loucura meu, de um texto sem sentido, de meras palavras desconexas jogadas num papel. Eu diria que ambos estão certos. Só não sei o quanto.

Hoje acordei confuso.
Das Palavras

A chuva caía forte do lado de fora. Em seu quarto, Beatriz ouvia com enorme prazer o som das gotas batendo na janela. O som ligado em volume baixo transmitia a voz de Elis Regina suavamente, quase como uma velha canção de ninar. Deitada na cama, observava o teto branco e imaginava se havia realmente feito a escolha certa. Não precisava ir muito longe com seus pensamentos, porém. O sorriso estampado em sua face era o maior indicador disso.

É verdade que tudo acontecera de forma bastante rápida. Abrira os olhos determinada manhã e sentira que era hora de mudar. Viver daquele jeito não era mais possível e as opções que figuravam em sua mente sugeriam medidas enérgicas. Da teoria à ação foi tudo muito simples. Levantou-se da cama, tomou um banho e vestiu seu melhor vestido. Colocou os brincos mais caros, passou batom cuidadosamente e ajeitou os cabelos. Estava pronta.

Saiu de casa apressadamente, levando debaixo do braço uma pasta. Caminhava a passos largos pela rua que ainda acabava de acordar. Parou para tomar um copo de café na padaria, na banca folheou o jornal do dia e seguiu seu caminho. O perfume que exalava podia ser sentido à distância, despertando nos poucos que já se encontravam de pé as mais diversas sensações.

Em seguida, entrou no primeiro ônibus que avistou no ponto. Ao trocador fez menção para que avisasse quando estivessem chegando ao ponto final. Sentada, repousou a cabeça na janela e se colocou a pensar. Seriam os últimos quilômetros antes da decisão final, e se havia algum momento para se arrepender, era agora.

Permaneceu imóvel até seu destino. Agradeceu pelo aviso ao trocador e desceu do ônibus. Uma simples olhada ao redor de si indicou que ela conseguira exatamente o que queria: estava em lugar que desconhecia por completo. A praia em frente ao ponto escolheu como local perfeito para o seu ato.

Da pasta que trazia consigo, já na areia, foi retirando uma a uma as folhas do livro que terminara dias antes. Em seguida, colocou-as lentamente no mar, deixando que fossem levadas vagarosamente.

À editora que esperava ansiosamente aquela que seria a continuação de seu romance de maior sucesso, disse apenas que havia perdido os originais, e, em seguida, pediu sua demissão.

À sua moral, entretanto, dera força redobrada, através da consciência de que escrever não haveria de se tornar jamais uma obrigação contratual, um ato forçado. Permaneceria como algo feito com paixão, com uma vontade imensa de fazer das palavras seu mundo.

A chuva caía forte do lado de fora. Em seu quarto, Beatriz ouvia com enorme prazer o som das gotas batendo na janela. Sorria graciosamente.

Havia mais mundo a se viver do que aquele que o dinheiro podia comprar.

Sábado, Setembro 22, 2001

Trapo

Sempre correra atrás de um grande amor. Procurava-o em cada esquina, em cada nova relação que iniciava sem vontade. Às vezes até sofria pelo término de uma ou outra dessas, mas não durava mais do que algumas semanas assim.

Ouvia de todos que ainda não havia chegado a sua hora, que um verdadeiro amor estava à sua espera. Entretanto, não acreditava nisso. Na verdade, sentia justamente o contrário: que as oportunidades já tinham surgido em sua vida e que ele não aproveitara.

Começou a questionar se não haveria algo de errado com ele mesmo. Seria possível viver sem amar? Com toda certeza, pois senão já teria morrido há tempos. Então por que continuava imune a esse sentimento? Não conseguia mesmo entender.

Aos poucos, foi acostumando-se com a idéia de que não havia nascido para amar. Construiu uma muralha em volta de si e resolveu não se aventurar mais em qualquer relação. Passou a ser considerado extremamente frio por todos aqueles que o cercavam e parecia orgulhar-se disso.

Afastou os amigos de anos por conta de tão arredio comportamento. Logo depois foi a vez dos parentes mais próximos. Não saía mais de casa, não atendia aos telefonemas e nem respondia às cartas enviadas. Tinha como única companhia a velha aparelhagem de som e sua coleção de discos de jazz.

Transformou-se por completo. A aparência agora era das mais repugnantes: barba por fazer, cabelo sem corte, roupas surradas. Não tinha motivos para estar diferente, é verdade, mas estava chegando ao extremo, e isso preocupava os poucos que ainda nutriam alguma compaixão por sua figura.

Meses se passaram sem que houvesse notícias de mudanças em seu comportamento. Parecia que havia mesmo acreditado que não teria chance de amar e se desligado do mundo. Como conseqüência óbvia, qualquer resquício de lembrança de sua pessoa foi apagado daqueles com quem convivera um dia.

Certa vez, caminhando pela casa enquanto ouvia um compacto de Chet Baker à meia-luz, reparou em sua imagem refletida suavemente na janela e observou-a por alguns instantes. Sentiu desprezo por si mesmo. Transtornado, lançou janela afora a taça de vinho praticamente cheia e começou a chorar compulsivamente.

Da gaveta onde estava a luminária tirou o revólver do qual disparou um tiro certeiro em sua própria fronte.

Quando encontraram o corpo, cerca de duas semanas depois, o impacto foi enorme. Todos se perguntavam o porquê de uma escolha tão errada e de um fim tão trágico para uma vida que poderia ser genial.

Mal sabiam que ele morrera por descobrir, ao avistar seu reflexo, que o amor que tanto procurara estava o tempo todo ao seu lado e que havia jogado fora ao longo daqueles anos.

O amor por si mesmo.
Caros leitores,

O desembucha.com resolveu sair do ar em definitivo e, por isso, migrei para o blogger.com. Para os que entravam no antigo endereço, essa mudança tem tudo para ser ótima, pois acredito que não haverá mais problemas para acessar o conteúdo diariamente. Agora é só ter paciência: aos poucos irei recolocar os textos aqui, e espero que vocês continuem freqüentando esse espaço da mesma maneira que faziam antes.

Para começar, fica o texto que me rendeu mais elogios na antiga versão do Rumo Ao Nada. Com os leitores novos, espero repetir o sucesso. Já em relação aos antigos, só posso pedir desculpas por estar me repetindo, mas não poderia simplesmente jogar fora tudo que já estava escrito lá. Prometo algo novo para breve.



Dias Assim

Tem dias que eu sinto saudades de você. São poucos, é verdade, mas eles existem. Normalmente são dias cinzentos, frios, dias que eu queria que você estivesse aqui ao meu lado. Mas você não está.

Em dias assim, costumo pegar o cobertor, enrolar-me nele e sentar na poltrona do canto da sala. A sua poltrona. Acendo a lareira, pego uma taça de vinho e ligo o toca-discos. Coloco aquele vinil que você me deu de presente de Natal e ouço várias vezes o mesmo lado, num gesto mais do que automático. Passo o dedo lentamente pela borda do copo, como se alisando os seus cabelos. Fito o retrato de nós dois juntos naquele verão do ano passado acima da lareira e faço menção de pegar o telefone. Mas sempre desisto.

Em dias assim, costumo reler todas as cartas que escrevi para você e que nunca tive coragem de enviar, mas que também nunca rasguei. São palavras que vão das mais doces às mais ásperas, muitas vezes sem nenhum sentido. Algumas escritas com tanta raiva que chegam a marcar a folha do outro lado. Outras, tão suaves que mal consigo ler o que está escrito. Penso em enviá-las agora, apenas para mostrar tudo o que você fez comigo quando me deixou. Mas me parece tão inútil que as deixo no mesmo lugar.

Em dias assim, vejo o seu filme preferido pela milésima vez e lembro de cada comentário seu. Vou à cozinha e faço brigadeiro para comermos com colher. Coloco aquela blusa roxa com listras amarelas que você tanto odeia e deixo a cama desarrumada só para você implicar comigo. Passo o dia deitado, olhando para o teto e revendo fotos das viagens que fizemos. Aperto o travesseiro contra o rosto para ver se ainda sinto o seu cheiro nele, igual ao que fazia todo dia de manhã quando você já havia se levantado para preparar nosso café.

Em dias assim, tenho vontade de berrar bem alto o quanto eu te amo, de dizer tudo aquilo que não disse antes por puro medo ou orgulho.

Nesses dias que sinto saudades, penso em você me olhando com carinho e dizendo que nunca vai me deixar.

E me pergunto se dias melhores virão.